sábado, 5 de fevereiro de 2011

"E, em certos dias, o próprio mar parecia-me, pelo contrário, quase rural. Nos dias, muito raros, de verdadeiro bom tempo, o calor traçara sobre as águas, como através dos campos, uma estrada poeirenta e branca através da qual se erguia a fina ponta de um barco de pesca como um campanário de aldeia. Um rebocador, de que só se via a chaminé, fumegava ao longe como uma fábrica distante, ao mesmo tempo que, sozinho no horizonte, um quadrado branco e enfunado, certamente pintado por uma vela, mas que parecia compacto e como que calcário, fazia lembrar a esquina soalheira de algum edifício isolado, hospital ou escola. E as nuvens e o vento, no dia em que se juntavam ao sol, completavam, se não o erro do juízo, pelo menos a ilusão do primeiro olhar, a sugestão que ele desperta na imaginação. Pois a alternância de espaços de cores nitidamente separadas, como as que resultam no campo da contiguidade de culturas diferentes, as desigualdades ásperas, amarelas e como que lamacentas da superfície marinha, as barreiras, os taludes que furtavam à vista um barco onde uma equipa de ágeis marinheiros parecia ceifar, tudo isso, nos dias de tempestade, fazia do oceano algo tão variado, tão consistente, tão acidentado, tão populoso, tão civilizado como a terra transitável sobre a qual eu antigamente caminhava, e onde não tardaria a dar passeios."
Marcel Proust, Em Busca do Tempo Perdido (IV - Sodoma e Gomorra)

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