domingo, 17 de abril de 2011

Como é que não notara há muito que os olhos de Albertine pertenciam à família dos que (mesmo num ser medíocre) parecem feitos de vários pedaços por causa de todos os lugares onde o ser quer estar - e esconder que quer estar - nesse dia? Olhos, sempre imóveis e passivos por mentira, mas dinâmicos, mensuráveis em metros ou quilómetros a percorrer para chegar ao local do encontro desejado, implacavelmente desejado, olhos que sorriem ainda menos ao prazer que os tenta do que se aureolam da tristeza e do desânimo por haver porventura alguma dificuldade em comparecer ao encontro. Entre as nossas próprias mãos, esses seres são seres em fuga. Para compreender as emoções que provocam e que outros seres, mesmo mais belos, não provocam, há que calcular que não estão imóveis, mas em movimento, e acrescentar à sua pessoa um sinal correspondente ao que em física é o sinal que significa velocidade.
Marcel Proust, Em Busca do Tempo Perdido (V - A Prisioneira)

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