sábado, 3 de novembro de 2012

Os espanhóis que, pelos vistos, não têm nada que fazer, arranjaram tempo para criar um termo, na sua língua, equivalente a "pacemaker". Foi o "marcapasos". Quem, entre nós, teria coragem para se expor ao ridículo de usar um vocábulo que, em português, substituísse qualquer dessas inúmeras palavras estrangeiras que nos enchem a boca? Nós não só não procuramos as palavras portuguesas que traduziriam as estrangeiras que constantemente chegam até nós, como substituímos muitas palavras portuguesas, já existentes, pelas estrangeiras que lhes correspondem. Hoje ninguém diz fita de cinema, mas filme; ninguém diz topo mas top; ninguém diz diapositivo mas slide; ninguém diz cuecas mas slips; ninguém diz sereias mas sirenes.
Este "boquiabertismo" (que tal?) dos portugueses perante o que é estrangeiro, já tem sido notado e sublinhado. Estou a lembrar-me daquele poeta quinhentista de nome Simão Machado, que escreveu estes versos:

Enfim que, por natureza,
e constelação do clima,
esta Nação Portuguesa
o nada estrangeiro estima,
o muito dos seus despreza.

Toda esta subserviência irresponsável não impede que estejamos constantemente a dar lições ao mundo e que o mundo nos olhe com espanto, de olhos esgazeados e boca entreaberta. Nem vós suspeitais, meus queridos tetranetos, da influência que temos tido, ontem e hoje, e que amanhã teremos, sobre todas as transformações que se dão neste mundo. Um assombro! Os portugueses têm qualidades únicas, virtudes singulares que os distinguem de todos. Afirmações deste género são frequentes, e posso disso dar-vos exemplos bem esclarecedores. Tenho guardados, a esse respeito, diversos apontamentos.

O Diário de Notícias de 30 de Outubro de 1960 relata um discurso de um doutor, de nome Manuel Anselmo, no nosso Parlamento, em que o próprio recorda um outro discurso, já proferido no mesmo local por ele próprio, há vinte e seis anos atrás, "perante o maior estadista do Ocidente e do Mundo inteiro: Salazar". Nesse discurso afirmava que "Portugal era a maior nação, a mais alta, a única verdadeiramente imortal, por isso que era a única com uma cultura, um estilo de vida, uma missão civilizante, que se entrega totalmente sem nada receber, só pela satisfação de oferecer à civilização os bens que plasma pelo Mundo."!
Em 20 de Novembro de 1961 o nosso Presidente da República, então em funções, o almirante Américo Tomás, foi a Espanha encontrar-se com o chefe de lá que era então o Generalíssimo Franco. Iam conversar sobre as suas políticas. O título da notícia do Diário das ditas, foi este: "Um dos maiores acontecimentos da História e da Civilização do Mundo Ocidental nos últimos tempos." (!)
Em 17 de Janeiro de 1962 o escritor António Quadros escreve, no Diário de Notícias, com toda a sinceridade e convicção: "O português é o mais estranho e enigmático dos seres." (!)
(...)
Como deveis saber, meus queridos tetranetos, existe uma ponte sobre o Tejo que parte de Lisboa, da zona de Alcântara, inaugurada em 1964, com a denominação "Ponte Salazar" e que, após a queda do regime ditatorial, passou a designar-se por "Ponte 2S de Abril". A inauguração dessa ponte foi motivo para as mais espantosas considerações a respeito do que nós somos. O respectivo ministro de então atravessou a ponte, comovido e orgulhoso, e disse: "É tempo de deixarmos para trás a modéstia excessiva que tem caracterizado as nossas acções. Agora é preciso mostrar ao mundo que [ ... ] somos capazes de levar a cabo tais obras, que definem com perfeição o valor de uma raça." (Diário de Notícias de 12 (ou 19?) de Novemmbro de 1964). O jornalista intitula a notícia com estes dizeres: "Extraordinária coragem e tenacidade estão a demonstrar os operários portugueses na construção da ponte sobre o Tejo." E pergunta: "Onde estão os nossos poetas para cantarem aquela aventura maravilhosa?" "E a ponte sobre o Tejo vai crescendo - numa sinfonia autêntica de nervos" [etc.] "talvez a fazer-nos entender melhor uma partitura de John Cage" [ ... ] "ou possa integrar-se numa obra de Chostakovitch."
Isto é de arrasar, meus queridos tetranetos. Não sei se para rir, se para chorar. E o mundo sempre, de olhos esbugalhados, a olhar para nós: [ ... ] "mostremos ao mundo em loucura, que somos menos, mas somos, com certeza, infinitamente melhores". (Palavras de um vereador da Câmara Municipal de Lisboa, em 22 de Agosto de 1963.)
"Dir-se-ia que este Povo, que criou a mais inverosímil história do Mundo, punhado de homens que encheu a Terra; desbravou mares e povos e continentes, só ama verdadeiramente o Impossível e só soube, em oito séculos de glória, erguê-lo e servi-lo." (De Augusto de Castro, director do Diário de Notícias, em 21 de Setembro de 1964.)
Assim vamos consumindo a nossa linguagem, já consagrada na escrita de Herculano, de Camilo, de Antero, etc., etc. "Nem lhe falta a glória ímpar de a ter falado Nossa Senhora nas aparições da serra de Aire, para os avisos da misericórdia do Céu, aos delírios do Mundo." (padre Moreira das Neves, Diário de Notícias de ?-?-1968).
Entretanto Salazar caiu da cadeira, ficou inutilizado para a governação e foi substituído no cargo que ocupava por Marcelo Caetano. Marcelo tomou então posse do seu lugar de Presidente do Conselho e, nesse acto solene, disse: "0 mundo tem os olhos postos em Portugal, mas a dignidade do povo português responderá a essa curiosidade ansiosa." (Diário de Notícias de 28-IX-1968).
Continuava, portanto, tudo em ordem. Isso permitiu que o Governador Civil de Lisboa fosse calmamente visitar o Clube Operário de Futebol, na Graça, e aí pudesse orgulhosamente afirmar: "O Clube Operário de Futebol é uma parcela muito válida da Nação: uma parcela do todo magnífico que é o nosso amado Portugal, deste inigualável e portentoso país que ao Mundo dá exemplos de altíssima dignidade, de indómito querer, de inexcedível valor" [ ... ] (Diário de Notícias de 15.VII.1971).
Não vos admireis, meus queridos tetranetos, de o Governador Civil consumir prosa de tal quilate num modesto clube de futebol, pois tudo quanto se ligue ao futebol é sagrado. É por ser assim que as multidões vibraram quando, em certa tarde, o jogador Eusébio passou a bola ao Néné e este marcou um golo na baliza do adversário. Isto "levaria um espectador a exclamar embevecido, no meio da emoção electrificada do terceiro anel, que essa jogada era uma das provas da existência de Deus!" (Jornal O Século, de 4-XII-1973).
Em 1974 deu-se a tal revolução que é costume designar por "25 de Abril", dia e mês daquele ano em que decorreu. Já me referi a esse acontecimento, aqui, em conversa surda convosco, embora para vocês, meus queridos tetranetos, nada disto já tenha importância. O que nela importou, para a geração presente, foi ter-se passado de um regime ditatorial para outro em que todos gozam da mais total liberdade. Como creio que já aqui vos disse, no regime anterior não sabíamos de nada do que realmente se passava porque ninguém podia falar; no regime actual, que se lhe seguiu, não sabemos nada do que se passa porque falam todos ao mesmo tempo.
Dir-se-ia que no regime anterior, no ditatorial, salazarento, havia necessidade de promover o mito da nossa grandeza como pequena nação que dava lições ao mundo, porque assim os governantes se tornavam admiráveis aos olhos de todos nós, merecedores da nossa gratidão e nós seus permanentes apoiantes e defensores. Pensava-se assim mas erradamente. O que nós somos é portugueses, quer vivamos sufocados em regime ditatorial, quer andemos a bailar nas ruas dando vivas à Liberdade. Portugueses sim, ontem, hoje e amanhã.
A revolução foi em 25 de Abril de 1974 e, nesse mesmo ano, um dos homens mais distintos da nossa sociedade, agora já falecido, o poeta José Gomes Ferreira, que conheci pessoalmente, escrevia, em plena liberdade, a propósito dessa mesma revolução: "resta-nos desafiar o mundo com o tamanho puro da nossa orgulhosa realidade de pequenez aparente". (!) (Diário de Notícias, de 6-X-1974)
Cá estamos nós, sempre portugueses, com ditadura ou sem ela, iguais a nós próprios, pequeninos, erguidos nos bicos dos pés da nossa prosápia. E o mundo estarrecido a olhar para nós.
Nesse mesmo mês de Outubro, dia 22, o novo director do Diário de Notícias, democrata, anti-fascista, da geração revolucionária, referia-se, no seu jornal, a um anúncio público em que se pediam médicos voluntários para a Guiné, e a que diversas pessoas acorreram. [ ... ] "aventurosa empresa" - escreve ele - "a que Portugal meteu ombros, e com que, verdade seja dita, o mundo se mostra surpreendido. Que diabo de gente é esta? - perguntarão alguns. Pois essa é a lusa gente."
Eu não estou a inventar, meus queridos tetranetos. Estou a reproduzir o que aqui tenho nos recortes que guardei e que até poderão chegar às vossas mãos. "Que diabo de gente é esta?" - pergunto também. Será isto um país de patetas? Dir-se-ia que sim se não fosse haver muito nele que não o seja.
Um político, Jaime Gama, que é ministro na altura em que vos estou escrevendo, diz: "É possível dar à Europa e ao Mundo a lição de como é viável caminhar para a sociedade socialista", etc., etc. (Diário de Notícias, 3.11.1975).
"Julgo que o processo em curso no seio das Forças Armadas é único em todo o Mundo." (General Vasco Gonçalves, Diário de Notícias, 25-3-1975).
"Nenhum país do Mundo constrói a sua liberdade como o faz o povo português." (Daniel Cabrita, Diário de Notícias, 29-3-1975).
[ ... ] "o projecto de um País Novo que será, ao mesmo tempo, o arauto de um Mundo mais humano para todos os países." (Diário de Notícias, Remy Freire, economista, 12-V-1975).
[ ... ] "a mais perfeita que se tem realizado no mundo." (António Bica, secretário de Estado, ao falar da reforma agrária em Portugal). (Jornal A Capital, 29-XII-1975).
[ ... ] "num país como o Portugal que polariza há vinte meses a atenção da Humanidade" [ ... ] (Miguel Urbano Rodrigues, Diário de Notícias, 31-XII-1975).
[ ... ] "o país mais livre do mundo" (Vasco da Gama Fernandes, presidente da Assembleia da República) (Diário de Notícias, 16-VI-1978).
"A cinematografia portuguesa é a mais importante do Mundo" João Botelho, em Jornal de Letras, 17-XII-1985).
[ ... ] "o português tem potencialidades de vir a ser a maior comunidade linguística do mundo, mesmo maior do que a da China". (Nuno Abecassis, presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Diário de Notícias, 22-IX-1988). [Este mesmo homem, falando de si próprio diz, numa outra oportunidade: "Neste momento sou considerado um dos presidentes de câmara mais importantes do mundo." (Diário de Notícias, 6-V-1989).]
Durante os anos oitenta ocorreram alguns acontecimentos, de grande notoriedade na vida política internacional, dos quais o de maior envergadura foi, sem dúvida, a queda do comunismo no Leste europeu com o desmantelamento da União Soviética. Pois, meus queridos tetranetos, ficai sabendo, para glória nossa, que tudo quanto ocorreu foi consequência da revolução do 25 de Abril.
[ ... ] "a revolução portuguesa despoletou uma série de acontecimentos que ainda hoje se estão a verificar e que encontram no 25 de Abril as suas raízes", disse-o Otelo Saraiva de Carvalho, um dos promotores dessa revolução, em "alusão às reformas políticas no Leste e América Latina". (Diário de Notícias, 26-IV- 1990).
"Abril foi precursor das mudanças no Leste", palavras de Soares Carneiro, Chefe do Estado Maior General das Forças Armadas, em mensagem dirigida às tropas (Diário de Notícias, 26. IV. 1990).
"Abril contribuiu para mudar políticas na Europa de Leste e resto do Mundo." (Couto dos Santos, ministro da Juventude, Diário de Notícias, 18- IV- 1990).
"Passaram-se 16 anos daquela madrugada de Abril em que o mundo estupefacto ouviu um grito de liberdade, vindo de um pequeno torrão que nem sabiam que existia." (Oswaldo de Sousa, crítico de arte, Diário de Notícias, 29-IV-1990).
[ ... ] "nós iniciámos o grande debate que hoje em dia se trava na Europa." (Vítor Alves, um dos grandes da tal revolução, Diário de Notícias, 28-IV-1990).
E, para terminar, e para que não me chameis o tetravô mais chato do mundo, registo algumas palavras do então Presidente da República, o Dr. Mário Soares, ditas em um colóquio sobre a Revolução de Abril: [ ... ] "não temos nenhuma razão para sermos modestos quando pensamos no 25 de Abril" [ ... ] "este teve um alcance mundial e não foi a última revolução do tipo antigo mas a primeira de um tipo novo, que haveria de ter reflexos no futuro, em várias regiões do universo". (Diário de Notícias, 20. IV. 1990).
E disse.
Eu ia realmente terminar, mas ... Ao fechar o livro de onde estive a extrair as frases que aqui reproduzi, eis que me saltou aos olhos um recorte do Jornal de Letras de 7 de Setembro de 1987. Já não se trata de dar lições ao mundo mas da Rosa Mota. A Rosa Mota é uma desportista que, em 1987, ganhou a maratona europeia, de corridas. Ela ia a correr por estradas romanas e, sobre isso, alguém escreveu: "Abalaste, com a tua passada, as pedras e as ossadas da cidade romana e os gritos sepultados das legiões imperiais. Calaste, de Homero, a Ilíada, e, de Virgílio, a Eneida, e cantaste, com Camões, uma nova página brilhante dos Lusíadas.

Foste a Rosa portuguesa,
Que correu sempre a fugir.
Foste lebre e ligeireza,
Chegaste ao fim a sorrir."

Este famoso texto é de Roque Lino, Secretário de Estado da Comunicação Social!
E agora sim. Basta!
Rómulo de Carvalho, Memórias

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