Este "boquiabertismo"
(que tal?) dos portugueses perante o que é estrangeiro, já tem sido
notado e sublinhado. Estou a lembrar-me daquele poeta quinhentista de
nome Simão Machado, que escreveu estes versos:
Enfim que, por natureza,
e constelação do clima,
esta Nação Portuguesa
o nada estrangeiro estima,
o muito dos seus despreza.
Toda esta subserviência
irresponsável não impede que estejamos constantemente a dar lições
ao mundo e que o mundo nos olhe com espanto, de olhos esgazeados e
boca entreaberta. Nem vós suspeitais, meus queridos tetranetos, da
influência que temos tido, ontem e hoje, e que amanhã teremos,
sobre todas as transformações que se dão neste mundo. Um assombro!
Os portugueses têm qualidades únicas, virtudes singulares que os
distinguem de todos. Afirmações deste género são frequentes, e
posso disso dar-vos exemplos bem esclarecedores. Tenho guardados, a
esse respeito, diversos apontamentos.
O Diário de Notícias de
30 de Outubro de 1960 relata um discurso de um doutor, de nome Manuel
Anselmo, no nosso Parlamento, em que o próprio recorda um outro
discurso, já proferido no mesmo local por ele próprio, há vinte e
seis anos atrás, "perante o maior estadista do Ocidente e do
Mundo inteiro: Salazar". Nesse discurso afirmava que "Portugal
era a maior nação, a mais alta, a única verdadeiramente imortal,
por isso que era a única com uma cultura, um estilo de vida, uma
missão civilizante, que se entrega totalmente sem nada receber, só
pela satisfação de oferecer à civilização os bens que plasma
pelo Mundo."!
Em 20 de Novembro de 1961
o nosso Presidente da República, então em funções, o almirante
Américo Tomás, foi a Espanha encontrar-se com o chefe de lá que
era então o Generalíssimo Franco. Iam conversar sobre as suas
políticas. O título da notícia do Diário das ditas, foi este: "Um
dos maiores acontecimentos da História e da Civilização do Mundo
Ocidental nos últimos tempos." (!)
Em 17 de Janeiro de 1962 o
escritor António Quadros escreve, no Diário de Notícias,
com toda a sinceridade e convicção: "O português é o mais
estranho e enigmático dos seres." (!)
(...)
Como deveis saber, meus
queridos tetranetos, existe uma ponte sobre o Tejo que parte de
Lisboa, da zona de Alcântara, inaugurada em 1964, com a denominação
"Ponte Salazar" e que, após a queda do regime ditatorial,
passou a designar-se por "Ponte 2S de Abril". A inauguração
dessa ponte foi motivo para as mais espantosas considerações a
respeito do que nós somos. O respectivo ministro de então
atravessou a ponte, comovido e orgulhoso, e disse: "É tempo de
deixarmos para trás a modéstia excessiva que tem caracterizado as
nossas acções. Agora é preciso mostrar ao mundo que [ ... ] somos
capazes de levar a cabo tais obras, que definem com perfeição o
valor de uma raça." (Diário de Notícias de 12 (ou 19?)
de Novemmbro de 1964). O jornalista intitula a notícia com estes
dizeres: "Extraordinária coragem e tenacidade estão a
demonstrar os operários portugueses na construção da ponte sobre o
Tejo." E pergunta: "Onde estão os nossos poetas para
cantarem aquela aventura maravilhosa?" "E a ponte sobre o
Tejo vai crescendo - numa sinfonia autêntica de nervos" [etc.]
"talvez a fazer-nos entender melhor uma partitura de John Cage"
[ ... ] "ou possa integrar-se numa obra de Chostakovitch."
Isto é de arrasar, meus
queridos tetranetos. Não sei se para rir, se para chorar. E o mundo
sempre, de olhos esbugalhados, a olhar para nós: [ ... ] "mostremos
ao mundo em loucura, que somos menos, mas somos, com certeza,
infinitamente melhores". (Palavras de um vereador da Câmara
Municipal de Lisboa, em 22 de Agosto de 1963.)
"Dir-se-ia que este
Povo, que criou a mais inverosímil história do Mundo, punhado de
homens que encheu a Terra; desbravou mares e povos e continentes, só
ama verdadeiramente o Impossível e só soube, em oito séculos de
glória, erguê-lo e servi-lo." (De Augusto de Castro, director
do Diário de Notícias, em 21 de Setembro de 1964.)
Assim vamos consumindo a
nossa linguagem, já consagrada na escrita de Herculano, de Camilo,
de Antero, etc., etc. "Nem lhe falta a glória ímpar de a ter
falado Nossa Senhora nas aparições da serra de Aire, para os avisos
da misericórdia do Céu, aos delírios do Mundo." (padre
Moreira das Neves, Diário de Notícias de ?-?-1968).
Entretanto Salazar caiu da
cadeira, ficou inutilizado para a governação e foi substituído no
cargo que ocupava por Marcelo Caetano. Marcelo tomou então posse do
seu lugar de Presidente do Conselho e, nesse acto solene, disse: "0
mundo tem os olhos postos em Portugal, mas a dignidade do povo
português responderá a essa curiosidade ansiosa." (Diário
de Notícias de 28-IX-1968).
Continuava, portanto, tudo
em ordem. Isso permitiu que o Governador Civil de Lisboa fosse
calmamente visitar o Clube Operário de Futebol, na Graça, e aí
pudesse orgulhosamente afirmar: "O Clube Operário de Futebol é
uma parcela muito válida da Nação: uma parcela do todo magnífico
que é o nosso amado Portugal, deste inigualável e portentoso país
que ao Mundo dá exemplos de altíssima dignidade, de indómito
querer, de inexcedível valor" [ ... ] (Diário de Notícias
de 15.VII.1971).
Não vos admireis, meus
queridos tetranetos, de o Governador Civil consumir prosa de tal
quilate num modesto clube de futebol, pois tudo quanto se ligue ao
futebol é sagrado. É por ser assim que as multidões vibraram
quando, em certa tarde, o jogador Eusébio passou a bola ao Néné e
este marcou um golo na baliza do adversário. Isto "levaria um
espectador a exclamar embevecido, no meio da emoção electrificada
do terceiro anel, que essa jogada era uma das provas da existência
de Deus!" (Jornal O Século, de 4-XII-1973).
Em 1974 deu-se a tal
revolução que é costume designar por "25 de Abril", dia
e mês daquele ano em que decorreu. Já me referi a esse
acontecimento, aqui, em conversa surda convosco, embora para vocês,
meus queridos tetranetos, nada disto já tenha importância. O que
nela importou, para a geração presente, foi ter-se passado de um
regime ditatorial para outro em que todos gozam da mais total
liberdade. Como creio que já aqui vos disse, no regime anterior não
sabíamos de nada do que realmente se passava porque ninguém podia
falar; no regime actual, que se lhe seguiu, não sabemos nada do que
se passa porque falam todos ao mesmo tempo.
Dir-se-ia que no regime
anterior, no ditatorial, salazarento, havia necessidade de promover o
mito da nossa grandeza como pequena nação que dava lições ao
mundo, porque assim os governantes se tornavam admiráveis aos olhos
de todos nós, merecedores da nossa gratidão e nós seus permanentes
apoiantes e defensores. Pensava-se assim mas erradamente. O que nós
somos é portugueses, quer vivamos sufocados em regime ditatorial,
quer andemos a bailar nas ruas dando vivas à Liberdade. Portugueses
sim, ontem, hoje e amanhã.
A revolução foi em 25 de
Abril de 1974 e, nesse mesmo ano, um dos homens mais distintos da
nossa sociedade, agora já falecido, o poeta José Gomes Ferreira,
que conheci pessoalmente, escrevia, em plena liberdade, a propósito
dessa mesma revolução: "resta-nos desafiar o mundo com o
tamanho puro da nossa orgulhosa realidade de pequenez aparente".
(!) (Diário de Notícias, de 6-X-1974)
Cá estamos nós, sempre
portugueses, com ditadura ou sem ela, iguais a nós próprios,
pequeninos, erguidos nos bicos dos pés da nossa prosápia. E o mundo
estarrecido a olhar para nós.
Nesse mesmo mês de
Outubro, dia 22, o novo director do Diário de Notícias,
democrata, anti-fascista, da geração revolucionária, referia-se,
no seu jornal, a um anúncio público em que se pediam médicos
voluntários para a Guiné, e a que diversas pessoas acorreram. [ ...
] "aventurosa empresa" - escreve ele - "a que Portugal
meteu ombros, e com que, verdade seja dita, o mundo se mostra
surpreendido. Que diabo de gente é esta? - perguntarão alguns. Pois
essa é a lusa gente."
Eu não estou a inventar,
meus queridos tetranetos. Estou a reproduzir o que aqui tenho nos
recortes que guardei e que até poderão chegar às vossas mãos.
"Que diabo de gente é esta?" - pergunto também. Será
isto um país de patetas? Dir-se-ia que sim se não fosse haver muito
nele que não o seja.
Um político, Jaime Gama,
que é ministro na altura em que vos estou escrevendo, diz: "É
possível dar à Europa e ao Mundo a lição de como é viável
caminhar para a sociedade socialista", etc., etc. (Diário de
Notícias, 3.11.1975).
"Julgo que o processo
em curso no seio das Forças Armadas é único em todo o Mundo."
(General Vasco Gonçalves, Diário de Notícias, 25-3-1975).
"Nenhum país do
Mundo constrói a sua liberdade como o faz o povo português."
(Daniel Cabrita, Diário de Notícias, 29-3-1975).
[ ... ] "o projecto
de um País Novo que será, ao mesmo tempo, o arauto de um Mundo mais
humano para todos os países." (Diário de Notícias,
Remy Freire, economista, 12-V-1975).
[ ... ] "a mais
perfeita que se tem realizado no mundo." (António Bica,
secretário de Estado, ao falar da reforma agrária em Portugal).
(Jornal A Capital, 29-XII-1975).
[ ... ] "num país
como o Portugal que polariza há vinte meses a atenção da
Humanidade" [ ... ] (Miguel Urbano Rodrigues, Diário de
Notícias, 31-XII-1975).
[ ... ] "o país mais
livre do mundo" (Vasco da Gama Fernandes, presidente da
Assembleia da República) (Diário de Notícias, 16-VI-1978).
"A cinematografia
portuguesa é a mais importante do Mundo" João Botelho, em
Jornal de Letras, 17-XII-1985).
[ ... ] "o português
tem potencialidades de vir a ser a maior comunidade linguística do
mundo, mesmo maior do que a da China". (Nuno Abecassis,
presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Diário de Notícias,
22-IX-1988). [Este mesmo homem, falando de si próprio diz, numa
outra oportunidade: "Neste momento sou considerado um dos
presidentes de câmara mais importantes do mundo." (Diário
de Notícias, 6-V-1989).]
Durante os anos oitenta
ocorreram alguns acontecimentos, de grande notoriedade na vida
política internacional, dos quais o de maior envergadura foi, sem
dúvida, a queda do comunismo no Leste europeu com o desmantelamento
da União Soviética. Pois, meus queridos tetranetos, ficai sabendo,
para glória nossa, que tudo quanto ocorreu foi consequência da
revolução do 25 de Abril.
[ ... ] "a revolução
portuguesa despoletou uma série de acontecimentos que ainda hoje se
estão a verificar e que encontram no 25 de Abril as suas raízes",
disse-o Otelo Saraiva de Carvalho, um dos promotores dessa revolução,
em "alusão às reformas políticas no Leste e América Latina".
(Diário de Notícias, 26-IV- 1990).
"Abril foi precursor
das mudanças no Leste", palavras de Soares Carneiro, Chefe do
Estado Maior General das Forças Armadas, em mensagem dirigida às
tropas (Diário de Notícias, 26. IV. 1990).
"Abril contribuiu
para mudar políticas na Europa de Leste e resto do Mundo."
(Couto dos Santos, ministro da Juventude, Diário de Notícias,
18- IV- 1990).
"Passaram-se 16 anos
daquela madrugada de Abril em que o mundo estupefacto ouviu um grito
de liberdade, vindo de um pequeno torrão que nem sabiam que
existia." (Oswaldo de Sousa, crítico de arte, Diário de
Notícias, 29-IV-1990).
[ ... ] "nós
iniciámos o grande debate que hoje em dia se trava na Europa."
(Vítor Alves, um dos grandes da tal revolução, Diário de
Notícias, 28-IV-1990).
E, para terminar, e para
que não me chameis o tetravô mais chato do mundo, registo algumas
palavras do então Presidente da República, o Dr. Mário Soares,
ditas em um colóquio sobre a Revolução de Abril: [ ... ] "não
temos nenhuma razão para sermos modestos quando pensamos no 25 de
Abril" [ ... ] "este teve um alcance mundial e não foi a
última revolução do tipo antigo mas a primeira de um tipo novo,
que haveria de ter reflexos no futuro, em várias regiões do
universo". (Diário de Notícias, 20. IV. 1990).
E disse.
Eu ia realmente terminar,
mas ... Ao fechar o livro de onde estive a extrair as frases que aqui
reproduzi, eis que me saltou aos olhos um recorte do Jornal de
Letras de 7 de Setembro de 1987. Já não se trata de dar lições
ao mundo mas da Rosa Mota. A Rosa Mota é uma desportista que, em
1987, ganhou a maratona europeia, de corridas. Ela ia a correr por
estradas romanas e, sobre isso, alguém escreveu: "Abalaste, com
a tua passada, as pedras e as ossadas da cidade romana e os gritos
sepultados das legiões imperiais. Calaste, de Homero, a Ilíada, e,
de Virgílio, a Eneida, e cantaste, com Camões, uma nova página
brilhante dos Lusíadas.
Foste a Rosa portuguesa,
Que correu sempre a fugir.
Foste lebre e ligeireza,
Chegaste ao fim a sorrir."
Este famoso texto é de
Roque Lino, Secretário de Estado da Comunicação Social!
E agora sim. Basta!
Rómulo de Carvalho, Memórias
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