domingo, 27 de outubro de 2013

Na sua tão simpática carta a senhora diz-se chocada com os grandes incêndios que no Verão sistematicamente destroem as matas de Portugal e pergunta-se se eu, português e escritor, não terei possibilidade duma ou doutra maneira pôr cobro a essas calamidades. 
Porque não a conheço, tenho de supor que a senhora vive com a noção mítica de que o escritor é um ente com poderes e meios de influenciar a sociedade. Mito, aliás, que os próprios escritores em geral ajudam a propagar. Mas deixe-me desde já dizer-lhe que assim não é. (...)
Mau grado o desassossego que isso possa vir a causar, pessoalmente inclino-me para a abolição do mito da importância do escritor na vida dos povos. Do mesmo modo que veria com bons olhos que, socialmente, os escritores fossem equiparados aos varredores e outras profissões humildes como a de lava-loiça ou assistente de limpeza. Entre os vários benefícios que isso traria, creio que se contribuiria também para pôr termo à extraordinária inflação que a actividade da escrita actualmente conhece na maioria dos países, a ponto de em muitos deles a flatulência se ter tornado tema literário, e a edição e venda de livros ganhar fortes parecenças com o comércio de vento.
Embora com nenhuma esperança de vê-lo chegar, eu sonho com o dia em que nas livrarias e nas bibliotecas se encontrem apenas os livros que nos enriquecem o espírito ou nos divertem. Não vá julgar que eu desejaria ver proibidos os restantes. De forma alguma. A esses, a gigantesca massa dos volumes em que gente sem talento nos dá conta das doentias vivências das suas pequeninas almas, eu desejaria apenas que fosse aplicada uma taxa segundo o princípio já corrente de que o poluidor deve pagar. Quem sabe se então, desencorajados, os pseudo-escritores não se deixariam tentar por uma actividade útil como é, por exemplo, a de bombeiro em Portugal. 
J. Rentes de Carvalho, Mazagran

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