sábado, 25 de junho de 2016

"...adormeci tontamente num banco do jardim, e a tonteria não foi ter adormecido, foi o lugar escolhido para tal sendo prova disso o facto de ter acordado quando uma caca de corvo me acertou em cheio na ponta do nariz, limpei-me e verifiquei cabelo, equipamento, roupa, mas não, fora apenas um ataque, certeiro e apesar de tudo bondoso, se fosse no cabelo dava muito mais trabalho a tirar. Eu não percebo nada de animais mas simpatizo com os corvos, acho até que devem ser os bichos mais espertos que existem, para já basta observá-los para se perceber que falam uns com os outros, falam mesmo, talvez com poucas palavras, assim como os polícias ingleses, poucas palavras mas significativas, e além disso protegem-se uns aos outros, é vê-los cair do céu às centenas se uma cria está abandonada ou um deles foi ferido e se arrasta no chão. Em Bombay, eu e o Peter passámos uma manhã inteira, da janela do quarto onde estávamos, a tentar acertar com molas de roupa nos corvos que esvoaçavam no pátio porque a dona do hotel despejara lá uns restos de comida. Mas qual quê? De cada vez que levantávamos o braço, ou até olhávamos para eles com ar de quem faz pontaria, desatavam a voar. Uma ocasião ficámos imóveis, de braço no ar armado de mola, ficámos, e ficámos, e ficámos, e eles nada. Mal nos cansámos e baixámos os braços, um corvo desceu, zás!, e levou um pedaço de comida. Eu fiquei com tanta raiva que cheguei a atirar um punhado de molas, atingi um de raspão e ele mandou uma risada de corvo, como quem diz até que enfim, ó palerma!" 
Paulo Varela Gomes, Era uma  vez em Goa

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