domingo, 19 de março de 2017

Lembro-me sempre, a este e outros propósitos, da ocasião em que assisti a uma exibição pública do famoso documentário Portugal: Um Retrato Social (...). Os espectadores não tinham tido qualquer experiência directa de Portugal ou do período salazarista. As imagens, a preto-e-branco, passavam diante deles mostrando um país triste, oprimido, pobre. Às referências à miséria, ao subdesenvolvimento, à repressão, somavam-se, talvez para tornar a coisa mais expressiva, frivolidades sobre o comprimento obrigatório das saias das raparigas ou a licença necessária para se ter isqueiro. A pobreza e a ditadura não bastaram aos autores do documentário; foi ainda preciso sugerir que se vivia numa opressão e tristeza permanentes. Comecei a ficar seriamente irritado e saí da sala, não fosse ter de intervir no debate que se seguiu à projecção para dizer que aquilo era uma demagogia pegada e que a vida das pessoas nos anos de 1960 e início da década de 1970 não era nada a preto-e-branco. Por incrível que pareça, Portugal era a cores. Até eu, o meu irmão, as minhas irmãs, com o pai preso depois de uma tentativa de golpe anti-salazarista da qual saiu à beira da morte, a mãe também presa, uma vida material muito difícil, até eu tive dias e noites de praia, namorei, ouvi música pop, dancei naquilo que na altura se chamavam boîtes, usei o cabelo comprido e roupas extravagantes, fumei charros, tudo isso no Portugal salazarista ou caetanista. Até eu tive momentos de felicidade, e não foram poucos, embora fosse muito menos pobre que os pobres, esses que também tiveram momentos de felicidade. O que me irrita em histórias do passado como a daquele documentário e outros semelhantes é a redução da dureza da vida a uma história para assustar crianças, insultuosa para as pessoas que sofreram de facto essa dureza, mas também para as outras, tratadas como espectadores tontos de uma história da qual a visão a preto-e-branco retira toda a verdade.  
Paulo Varela Gomes, Preto-e-Branco, em Ouro e Cinzas

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