domingo, 12 de março de 2017

Tocou a Sonata para violoncelo em mi menor, opus 38, de Brahms. A sua boa cara estava estranhamente voltada para o interior, o seu bigode grisalho, nos lábios estendido, já não era um bigode, mas uma sombra cinzenta; as rugas das suas faces já não estavam dispostas da mesma maneira, já não tinha cara, a sua cara estava quase invisível, era talvez uma cinzenta tarde de Outono, pouco antes de nevar, E quando uma lágrima lhe rolou ao longo do nariz, já não era também uma lágrima. Só sua mão ainda era uma mão. Dir-se-ia que a arcada lhe captara toda a vida, o arco subia e baixava sob o impulso das moles e trigueiras ondulações de um rio de sons que cada vez se alargava mais, e ia cercando com suas vagas aquele que tocava, a tal ponto que este parecia só e como que separado dos outros. Tocava. Era provável que não passasse de um simples dilettante, mas isso não podia deixar de lhe ser indiferente a ele, indiferente ao comandante e também, com certeza, a Kuhlenbeck, pois naquela altura, o mutismo ruidoso da época, o lampejo mudo e impenetrável desse alarido, interposto entre o homem e o próximo, muro que a voz do homem não podia atravessar nem de um lado nem do outro, de tal modo que o homem não podia evitar um arrepio — o mutismo medonho da época fora abolido, o próprio tempo fora abolido e ganhara a forma do espaço que os encerrava a todos no momento em que o violoncelo de Kessel ressoava, fazia ecoar o som, edificando o espaço, enchendo o espaço, enchendo-os a eles próprios.
Hermann Broch, Os Sonâmbulos

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