domingo, 16 de abril de 2017

Oh, o Homem e o animal são próximos parentes! Mas se nós falamos da origem, o Homem nasceu do animal, pouco mais ou menos, como o orgânico do inorgânico. Alguma coisa se acrescentou a isso.
- Acrescentou? E o quê?, se me é permitido perguntar.
- Pouco mais ou menos o que foi acrescentado quando o ser emergiu do nada. Ouviu alguma vez falar da geração espontânea?
Anseio por ouvir falar.
(...)
Não houve uma geração espontânea, mas três: o Ser saindo do Nada, a Vida proveniente do Ser e o nascimento do Homem.
(...)
 Curvado para a frente, ouvia o meu curioso companheiro de viagem falar-me do Ser, da Vida, do Homem e do Nada, onde tudo tinha sido engendrado e onde tudo regressaria. Ele dizia que, sem nenhuma dúvida, a vida terrestre não era senão um episódio relativamente efémero, tal como o ser era outro entre dois nadas. O ser não tinha existido sempre e não existiria sempre. Houvera um começo e haveria um fim, mas com ele abolir-se-iam o espaço e o tempo, que existiam unicamente em função dele e só por ele estavam ligados. Kuckuck disse que o espaço não era senão a ordem ou as relações das coisas materiais entre elas. Sem objetos para o ocupar não haveria nem espaço nem tempo porque o tempo não era outra coisa senão uma hierarquia de incidentes (facilitada pela presença dos corpos), o produto do movimento de causa e efeito, cujo decorrer dava ao tempo uma direcção sem a qual ele não existiria. Ora a abolição do espaço e do tempo era precisamente a definição do nada. Este, sem dimensões em todas as acepções da palavra, uma eternidade estática, tinha sido passageiramente interrompido pelo ser espacial e temporal. A este ser fora concedida uma dilação, alguns iões a mais do que à vida, mas um dia ele acabaria, seguramente, e também seguramente a esse fim corresponderia um começo. Quando é que o tempo, o devir, tinham começado? Quando o primeiro sobressalto do ser tinha jorrado do nada pela vontade dum "Que isso seja!", que já implicava como uma irrefutável necessidade um: "Que isso desapareça!" Talvez o «quando» do devir não fosse tão recuado no passado, nem o «quando» do aniquilamento tão afastado no futuro. Talvez não se tratasse senão de alguns biliões de anos. Contudo, o ser celebrava a sua festa tumultuosa nos espaços incomensuráveis que eram a sua obra e onde ele formava as distâncias fixadas num vácuo gelado.
E Kuckuck falou-me do gigantesco teatro desta festa, o universo filho perecível do eterno nada, cheio de corpos materiais sem número: meteoros, luas, cometas, nebulosas, milhões e milhões de estrelas em interacção e ordenados uns em relação aos outros segundo a actividade dos seus campos de gravitação, em massas, nuvens, galáxias e supersistemas de galáxias, cada uma formada de inumeráveis sóis em ignição, de planetas girando sobre si mesmo, de gases rarificados, de campos de escombros frios feitos de escórias, de pedra e de poeira cósmica.
(...)
Disse-me também que a nossa Via Láctea, uma entre biliões de outras, englobava o nosso sistema solar local, quase na sua franja, um pouco como uma florinha nascida no buraco dum muro, a trinta anos-luz do seu centro, com a sua esfera de fogo gigantesca relativamente insignificante chamada o Sol (embora ele só merecesse o artigo indefinido) e os planetas dominados pelo seu campo de atracção, entre os quais a Terra. Esta tinha o prazer e o trabalho de girar sobre o seu eixo à velocidade de mil seiscentos e setenta quilómetros por hora e de fazer, à cadência de trinta quilómetros por segundo, a volta do Sol. Assim formava ela os seus dias e os seus anos - os seus próprios, bem entendido, porque havia outros. O planeta Mercúrio, por exemplo, o mais próximo do Sol, executava a sua evolução em trinta e oito dos nossos dias, tempo em que girava uma única vez sobre si mesmo, de forma que para ele o ano e o dia eram apenas um. Podia-se ver por aqui que acontecia com o tempo o que acontecia com a gravidade, que também não era universalmente válido. Por exemplo, no branco satélite de Sírius, que era apenas três vezes maior do que a Terra, a matéria tinha uma tal densidade que um centímetro cúbico pesaria entre nós cerca de sessenta quilogramas. A substância, os nossos maciços rochosos, o nosso corpo humano, não eram, em comparação com ele, senão uma ligeira espuma sem consistência.
Enquanto a Terra — tive a boa fortuna de o aprender- se apressava, girando em volta do Sol, a sua Lua girava em volta dela. Todo o nosso sistema solar se movia no quadro dum sistema estelar mais vasto embora ainda muito local e que, aliás, por seu turno, não ficava inactivo — porque esse sistema de interacção se movia a uma velocidade enorme no interior da nossa Via Láctea, a qual, em relação com as suas longínquas irmãs, devorava o espaço também com uma avidez inimaginável. E tudo isso, essas distantes combinações materiais do Ser, tão rápidas que a velocidade dum obus por comparação com ela não era senão imobilidade, dispersavam-se em todas as direcções no nada para onde elas levavam impetuosamente o espaço e o tempo. Essas rotações, esses turbilhões imbricados e circulares, essa contracção de nebulosas condensadas em corpos, essa ignição, esse flamejamento, esse arrefecimento, essa explosão, esse retorno à poeira, essa queda e essa perseguição sem fim, saídos do nada e suscitando o nada, tudo isso, que talvez fosse melhor ter ficado adormecido e esperava tornar a cair no sono — era o Ser, igualmente chamado Natureza, e era Um, por toda a parte e em tudo. Rogou-me que não duvidasse que todo o ser, e a Natureza, formavam uma unidade circunscrita em si, desde a simples matéria inanimada, até à mulher com braços dum belo contorno, até à forma de Hermes. O nosso cérebro humano, a nossa ossatura, eram os mosaicos das mesmas moléculas elementares de que se compunham as estrelas, a poeira cósmica e as sombrias nuvens movediças do espaço interestelar. A vida saída do Ser, como este jorrara do Nada — a vida, flor do Ser —tinha todas as suas substâncias fundamentais em comum com a natureza inanimada e não podia apresentar uma só que fosse só dela. Não se poderia dizer que ela se diferenciava sem equívoco do ser simples inanimado. Entre ela e o inanimado a fronteira continuava imprecisa. A célula vegetal apresentava a possibilidade natural de transformar as matérias pertencentes ao reino mineral com a ajuda do éter solar, de tal forma que estas tomavam vida nela. A faculdade de geração espontânea da clorofila mostrava-nos como o inorgânico pode dar origem ao orgânico. Os casos inversos não faltavam, aliás, como o testemunham os minerais formados pelos ácidos silícicos animais. Futuras montanhas da terra firme cresciam do mais profundo dos mares, provenientes dos despojos dos esqueletos de minúsculos seres animados. Na meia-vida ilusória dos cristais líquidos processava-se manifestamente a passagem dum reino natural a outro. E sempre que a Natureza, para nos mistificar, simulava o orgânico no inorgânico (como nas flores do enxofre ou nas flores do gelo) ela pretendia ensinar-nos a sua unicidade.
O orgânico, esse mesmo, não conhecia linha de demarcação muito nítida entre as suas diversas variedades. O animal transformava-se em vegetal quando se ligava uma haste e adoptava a forma simétrica duma flor — o vegetal transformava-se em animal quando atraía e devorava os bichos em vez de sugar a vida no mineral. O Homem tinha nascido do reino animal, talvez por derivação, como se dizia, mas em realidade, pela contribuição dum elemento novo ao qual era tão difícil dar um nome como à essência da vida ou à aparição original do ser. Mas o ponto em que ele se transformava em Homem e já não era animal (ou antes, já não era unicamente animal) era difícil de precisar. O Homem guardava a sua animalidade da mesma forma que a vida mantinha nela o inorgânico, porque nos seus últimos materiais de construção - os átomos- ela chegava ao «não-mais-orgânico" ou ao «ainda-não-orgânico». Contudo, lá bem no fundo, no átomo imperceptível, a matéria volatilizava-se no imaterial, no que já não era corporal. E isto porque o que se elaborava aí e de que o átomo formava a superestrutura era quase debaixo do ser e não ocupava um lugar determinado no espaço nem uma porção de espaço que se pudesse definir como honestamente convém a um corpo. O ser nascia do «apenas-já-existente», e mergulhava no «apenas-ainda-existente»...
Na Natureza todas as formas, desde as mais antigas e mais sumárias, quase ainda imateriais, até às mais evoluídas e vivas, estavam reunidos e coexistiam: a nebulosa, a pedra, o verme e o homem. Muitas das formas animais tinham desaparecido e já não havia répteis voadores nem mamutes. Isso não impedia que ao lado do homem continuasse a viver o animal primitivo, apenas provido duma forma: o unicelular, o micróbio, o infusório, com uma entrada e uma saída no seu corpo-célula. Não era preciso mais para ser um animal. E, para ser um homem, não era geralmente preciso muito mais. 
(...)
- O «progresso» existe, existe, sem dúvida nenhuma. Do Pithecantropus erectus a Newton e a Shakespeare, havia um longo caminho nitidamente ascendente. Mas pelo que se refere ao comportamento do resto da Natureza, esse era também do mundo dos humanos. Neste caso havia sempre a reunião de tudo, dos estados mais diversos da cultura e da ética. Desde o espécime mais primitivo até ao mais recente, do mais estúpido ao mais inteligente, do mais primário, obtuso e selvagem até à evolução mais alta e mais perfeita, tudo coexistia sempre neste mundo. Muitas vezes o superfino, cansado de si mesmo, enamorava-se do primitivo e, embriagado, recaía na selvajaria. E basta de falar a este respeito.
Mas era preciso dar ao Homem o que lhe era devido, e Kuckuck não me escondia ... o que distinguia o Homo Sapiens do resto da Natureza, da Natureza orgânica e do ser no estado simples. Esta distinção era constituída pelo elemento que se tinha provavelmente acrescentado quando este ser tinha saído da animalidade. Era a noção do começo e do fim.
Tinha pronunciado, eu próprio, a palavra mais humana ao dizer que o facto de aprender que a vida não era senão um episódio me dispunha em seu favor. Com efeito, o efémero, em vez de a desvalorizar, conferia precisamente a toda a existência sobre a Terra o valor e a dignidade que a tornavam digna de ser amada. Só o episódico, só o que tinha um começo e um fim era interessante e despertava a simpatia, justamente porque era efémero. Aliás, isto era assim para tudo. O efémero impregnava o ser cósmico, e só o nada era eterno e, portanto, indigno de simpatia. O nada donde a Vida e o Ser provinham para sua alegria e seu tormento.
Ser não significava bem-estar. Era uma alegria e um tormento e todo o ser integrado no espaço e no tempo, toda a matéria, participava, mesmo em estado de profunda letargia, nessa vida, nesse tormento, no sentimento que inclinava o Homem, detentor da sensibilidade mais acordada, para a simpatia universal. A "simpatia universal», repetiu Kuckuck, apoiando-se com as mãos no tampo da mesa para se levantar. Olhou-me com os seus olhos estrelados e fez-me sinal com o queixo.  
- Boa noite, (...) Durma bem. Sonhe com o Ser e com a Vida! Sonhe com o tumulto das galáxias que, porque existem, sofrem a sua existência na alegria e no tormento. Sonhe com o braço dum belo contorno, mas duma ossatura primitiva e com a flor dos campos que sabe, graças ao éter solar, extrair o inanimado e, transformando-o, incorporá-lo. E não se esqueça de sonhar com as pedras, com o rochedo que jaz na torrente há milhares de anos, lavado e refrescado pelo rebentamento da espuma e das águas. Considere com simpatia a sua existência como ser mais consciente perante o mais profundamente inconsciente e saúde-o na criação. Ele conhece o bem-estar, se o ser e o bem-estar se podem conciliar. Desejo-lhe uma boa noite! 
Thomas Mann, As Confissões de Félix Krull, Cavalheiro de Indústria

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