sábado, 20 de janeiro de 2018

A verdade é que a Sra. Crowe não queria intimidades; queria conversar. A intimidade gera o silêncio, e o silêncio era coisa que ela detestava. Tinha que haver conversa, e esta tinha que ser sobre assuntos gerais, sobre tudo um pouco. Não podia ser demasiado profunda, nem demasiado inteligente; pois se a conversa avançava demasiado em qualquer destas direcções, era certo e seguro que alguém haveria de se sentir excluído e ficar ali a girar a sua chávena de chá, sem abrir a boca. Assim, a sala de estar da Sra. Crowe pouco tinha em comum com os celebrados salões dos escritores de memórias. Era muitas vezes frequentada por pessoas médicos, juízes, deputados, músicos, escritores, viajantes, jogadores de pólo, actores e perfeitas nulidades — mas se alguém dizia algo de brilhante, isso era considerado uma espécie de falha de etiqueta, uma contingência prontamente ignorada, como se se tratasse de um ataque de espirros ou uma qualquer catástrofe com um pedaço de bolo. O tipo de conversa que a Sra. Crowe apreciava era uma versão nobilitada da bisbilhotice de aldeia. A aldeia em questão era Londres, e a bisbilhotice incidia sobre a vida de Londres. Mas o grande dom da Sra. Crowe consistia em fazer com que a vasta metrópole parecesse reduzir-se à dimensão de uma aldeia com igreja, solar e umas vinte e cinco casas. Ela tinha informações de primeira mão a respeito de cada peça de teatro, cada filme, cada julgamento, cada caso de divórcio. Sabia quem estava para casar, quem estava para morrer, quem estava na cidade ou se havia ausentado. Mencionava o facto de ter visto passar o carro de Lady Umphleby, e arriscava o palpite de que esta iria visitar a sua filha, cujo bebé tinha nascido na noite anterior; e nisso era como uma aldeã a comentar que viu a esposa do Senhor conduzir até à estação para receber o Sr. John, recém-chegado da cidade. E tendo feito tais observações ao longo dos últimos cinquenta anos, a Sra. Crowe adquirira um impressionante acervo de informações a respeito da vida das outras pessoas.
Virginia Woolf, Londres, Retrato de uma Londrina

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