domingo, 21 de janeiro de 2018

Pronto, fiquei sem sono. O sono nunca quer muito comigo, primeiro atormenta-me para logo me abandonar muito depressa, por volta da meia-noite. O sono é um monstro de egoísmo que só faz o que lhe apetece. O Dr. Kraus é um médico medíocre, devia mudar. Despedi-lo. Devia oferecer-me o luxo de despedir o meu próprio médico, pô-lo a andar, um médico que nos fala de repouso em todas as consultas, mas que é incapaz de nos fazer dormir não merece o nome de médico. É preciso reconhecer, em sua defesa, que nunca engoli as porcarias que ele me prescreve. Mas um médico que não adivinha que não vamos tomar as porcarias que ele prescreve não é um bom médico, outra razão para mudar. Apesar disso, Kraus tem ar de ser um homem inteligente, sei que gosta de música, não, exagero, sei que vai a concertos, o que não prova nada. Ainda ontem me disse: «Fui ouvir Liszt ao Musikverein», respondi-lhe que tinha tido sorte, há muito que Liszt não tocava em Viena. Riu-se, claro, e depois disse: «Ah, o doutor Ritter faz-me morrer a rir», o que é, convenhamos, uma frase estranha vinda de um médico. Continuo a não lhe perdoar ter-se rido quando lhe pedi para me prescrever ópio. «Ah ah ah, posso passar-lhe uma receita, mas em seguida vai ter que encontrar uma farmácia do século XIX.» Eu sei que ele mente, verifiquei no Jornal Oficial, um médico austríaco tem direito a prescrever até 2 g de ópio por dia e 20 g de láudano, e se é assim deve conseguir encontrar-se. O que é ridículo, é que se for um veterinário da mesma nacionalidade pode prescrever até 15 g de ópio e 150 g de tintura de ópio, dá-nos vontade de ser um cão enfermo. Posso talvez suplicar ao bicho do Gruber para que me venda uma parte dos seus medicamentos às escondidas do dono, ora aí está o que daria finalmente algum préstimo ao cachorro. 
Mathias Énard, Bússola

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