sexta-feira, 20 de novembro de 2009

"Era óbvio que a sua evolução se tinha dividido em dois caminhos, dos quais um estava exposto à luz do dia e o outro escondido na escuridão; e o estado de estagnação moral que há muito tempo, talvez mais do que o necessário, o oprimia só podia vir do facto de ele nunca ter conseguido conciliar estes dois caminhos.
Lembrando-se de que o impossível encontro desses dois caminhos se tinha manifestado nos últimos tempos na relação tensa entre literatura e realidade, símbolo e verdade, Ulrich apercebeu-se de repente de que isso significava muito mais do que uma ocasional inspiração no meio de uma dessas conversas que se cruzavam como caminhos sem destino e que ultimamente tinha mantido com os menos adequados interlocutores. Na verdade, encontramos desde as origens da história humana estas duas formas de comportamento, a simbólica e a inequívoca. O ponto de vista do inequívoco é a lei do pensamento e da acção despertos, que domina quer uma conclusão irrefutável da lógica quer o cérebro de um chantagista que pressiona passo a passo a sua vítima, uma lei que resulta das necessidades da vida, às quais sucumbiríamos se não fosse possível dar uma forma inequívoca às coisas. O símbolo, por seu lado, é a articulação de ideias próprias do sonho, é a lógica deslizante da alma, a que corresponde o parentesco das coisas nas intuições da arte e da religião; mas também tudo o que na vida existe de vulgares inclinações e aversões, de concordância e repulsa, de admiração, submissão, liderança, imitação e seus contrários, todas estas relações do homem consigo e com a natureza, que ainda não são puramente objectivas e talvez nunca venham a sê-lo, só podem ser entendidas em termos simbólicos. Aquilo a que se chama a humanidade superior mais não é, com certeza, do que a tentativa de fundir estas duas metades da vida, a do símbolo e a da verdade, cuidadosamente separadas antes. Mas quando separamos num símbolo tudo aquilo que talvez possa ser verdadeiro do que é apenas espuma, o que acontece geralmente é que se ganha um pouco de verdade, mas se destrói todo o valor que o símbolo tinha. Por isso, talvez esta separação tenha sido inevitável na evolução do espírito, mas produziu o efeito que se obtém quando se ferve uma substância para a engrossar e, ao fazê-lo, provocamos a evaporação do que nela existe de mais intrínseco. Hoje é quase impossível não ter a impressão de que os conceitos e as regras da vida moral são apenas símbolos recozidos, envoltos nos insuportáveis e gordurosos vapores da cozinha da humanidade. E se nos for permitido um pequeno desvio, acrescentaremos que essa impressão que vagamente embebe todas as coisas teve também o efeito de gerar qualquer coisa a que o presente, a ser honesto, deveria chamar a sua veneração da baixeza. De facto, hoje mente-se menos por fraqueza, e mais pela convicção de que um homem que domina a vida tem de saber mentir. Somos violentos porque a realidade inequívoca da violência, ao cabo de tanta conversa ineficaz, produz o efeito de uma libertação. Juntamo-nos em grupos porque a obediência permite fazer tudo aquilo que há muito não somos capazes de fazer por convicção, e a hostilidade desses grupos proporciona às pessoas a reacção recíproca e imparável da vingança, ao passo que o amor em breve arrefeceria. E isto tem menos a ver com a questão da bondade ou da maldade dos homens do que com o facto de que eles perderam a noção da ligação entre grandeza e baixeza. Outra consequência contraditória desta discrepância é também o excesso de ornamentos espirituais com que hoje se enfeita a desconfiança em relação ao espírito. O cruzamento das visões filosóficas do mundo com outras actividades que só dificilmente as toleram, como a política, a mania generalizada de fazer de qualquer ponto de vista um princípio e de tomar qualquer princípio por um ponto de vista, a necessidade dos fanáticos de todos os quadrantes de reproduzirem à sua volta, como numa sala de espelhos, uma revelação que lhes foi feita - todos estes fenómenos tão comuns não significam o que pretendem ser, um esforço para melhorar a humanidade, mas antes uma falta de humanidade. No conjunto, ficamos com a impressão de que teríamos primeiro de afastar inteiramente das relações humanas a alma que se alojou aí por engano. E no momento em que pensava nisto, Ulrich sentiu que a sua vida, a ter algum sentido, seria este: que as duas esferas fundamentais da humanidade se mostravam aí separadas, opondo-se uma à outra nos efeitos que produziam. É evidente que existem hoje pessoas assim, mas por enquanto estão sozinhas, e sozinho ele não conseguia voltar a unir as metades separadas. Não tinha ilusões sobre o valor destas suas experiências mentais; talvez elas nunca conseguissem encadear pensamentos fora de uma sequência lógica, mas as coisas passavam-se como se colocasse uma escada sobre a outra, e a ponta oscilasse a uma altura muito distante da vida natural. E isso causava-lhe uma profunda repulsa."
Robert Musil, O Homem sem Qualidades
Edvard Munch, The Wave, c. 1919
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"Com uma arte grandiosa e diversa, geramos uma ilusão que nos ajuda a viver paredes meias com as coisas mais monstruosas sem perder a tranquilidade, porque reconhecemos nesses esgares petrificados do universo uma mesa ou uma cadeira, um grito ou um braço estendido, uma velocidade ou um frango assado. Entre um abismo celeste aberto sobre as nossas cabeças e um abismo celeste camuflado sob os nossos pés, somos capazes de nos sentir tão tranquilos à superfície da Terra como num quarto fechado. Sabemos que a vida se perde tanto nas desumanas vastidões do espaço como na desumana estreiteza do mundo dos átomos, mas entre as duas coisas tratamos uma série de configurações como coisas do mundo, sem nos deixarmos minimamente perturbar pela evidência de que isso significa tão-somente uma preferência pelas impressões que captamos a partir de uma certa distância média. Tal comportamento está bastante abaixo das possibilidades do nosso entendimento, mas prova precisamente que os sentimentos desempenham aí um papel decisivo. E com efeito, os mais importantes dispositivos intelectuais da humanidade servem a experiência de um estado de espírito estável, e todos os sentimentos, todas as paixões do mundo são nada frente ao esforço enorme, mas totalmente inconsciente, que a humanidade faz para manter essa sua serena tranquilidade! Quase não vale a pena falar disso, de tal modo o seu funcionamento é impecável. Mas, se virmos mais de perto, é extremamente artificial o estado de consciência que confere ao homem o porte íntegro no meio do sistema dos astros e lhe permite, face ao quase infinito desconhecimento do mundo, meter dignamente a mão entre o segundo e o terceiro botão do casaco. E, para conseguir isso, todo o ser humano, o sábio tal como o idiota, não recorre apenas aos seus artifícios; estes sistemas pessoais de artifícios são também engenhosamente inseridos nos dispositivos de equilíbrio morais e intelectuais da sociedade e da totalidade que, a uma escala maior, servem os mesmos fins. Esta engrenagem assemelha-se à da grande Natureza, em que todos os campos de forças do universo agem sobre o da Terra sem que se dê por isso, porque os acontecimentos terrenos são o resultado de tudo isso; e o alívio espiritual assim conseguido é tão grande que tanto os mais sábios como qualquer rapariguinha ignorante se sentem inteligentes e bons nessa sua condição imperturbada.
Mas de tempos a tempos, depois dessas fases de contentamento, a que também poderíamos chamar, em certo sentido, estados obsessivos da emoção e da vontade, parece que o contrário se abate sobre nós, ou, para exprimir a ideia em termos de manicómio, dá-se subitamente na Terra uma intensa fuga de ideias, passada a qual toda a vida humana se deslocou para novos centros e eixos. A causa profunda de todas as grandes revoluções, que as explica mais do que o seu pretexto próximo, não reside na acumulação de condições insuportáveis, mas no desgaste da coesão em que se apoiava a satisfação artificial das almas. Poderíamos evocar a este propósito a fórmula de um filósofo dos começos da Escolástica, que em latim diz: Credo, ut intelligam, e que, com alguma liberdade, se poderia traduzir nos seguintes termos em linguagem de hoje: «Senhor meu Deus, concede ao meu espírito um crédito à produção!» Provavelmente, todos os credos humanos são casos especiais de crédito. No amor e nos negócios, na ciência e no salto em comprimento, temos de acreditar antes de ganhar e alcançar o que se pretende - e seria possível que isso não se aplicasse também à vida no seu todo? Por mais fundamentada que seja a sua ordem, há sempre nela uma parte de crença voluntária nessa ordem, que assinala, como numa planta, o lugar onde irrompe o rebento. E no momento em que chega ao fim essa fé para a qual não há prestação de contas nem cobertura, a derrocada não tardará a chegar: as épocas e os impérios desmoronam-se como os negócios quando lhes falta o crédito!"
Robert Musil, O Homem sem Qualidades

segunda-feira, 16 de novembro de 2009


Edvard Munch, Girls on the Jetty, 1903
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"Toda a gente tem o seu método de interpretar a seu favor o balanço das suas impressões, para que daí resulte de algum modo aquele mínimo de prazer necessário às suas existências quotidianas, o suficiente em tempos de normalidade. O prazer da vida de cada um pode ser também constituído por desprazer, essas diferenças de ordem material não têm importância; sabemos que existem tantos melancólicos felizes como marchas fúnebres, que pairam tão suavemente no elemento que lhes é próprio como uma dança no seu. Talvez também se possa afirmar, ao contrário, que muitas pessoas alegres de modo nenhum são mais felizes do que as tristes, porque a felicidade é tão cansativa como a infelicidade; mais ou menos como voar, segundo o princípio do mais leve ou mais pesado do que o ar. Mas haveria ainda uma outra objecção: não terá razão aquela velha sabedoria dos ricos segundo a qual os pobres não têm nada a invejar-lhes, já que é pura fantasia a ideia de que o seu dinheiro os torna mais felizes? Isso só lhes imporia a obrigação de encontrar um sistema de vida diferente do seu, cujo orçamento, em termos de prazer, fecharia apenas com um mínimo excedente de felicidade, que eles, assim como assim, já têm. Teoricamente, isto significa que uma família sem abrigo, se não morrer congelada durante uma noite gélida de Inverno, aos primeiros raios de sol da manhã se sentirá tão feliz como o homem rico que tem de sair da sua cama quente. Na prática, o que importa é que cada um carrega pacientemente, como um burro, a carga que lhe foi posta no lombo; e um burro que se sente um pouco mais forte do que a sua carga é um burro feliz. E de facto esta é a mais fiável definição de felicidade pessoal a que se pode chegar enquanto olharmos apenas para o caso do burro. Na verdade, porém, a felicidade pessoal (ou o equilíbrio, a satisfação ou qualquer outro nome que se dê ao objectivo automático e mais íntimo de uma pessoa) é tanto uma realidade fechada quanto uma pedra num muro ou uma gota de água num rio atravessado pelas forças e tensões do todo. Aquilo que uma pessoa faz e sente é insignificante quando comparado com tudo o que tem de pressupor que outros fazem e sentem normalmente por ela. Ninguém vive apenas o seu próprio equilíbrio, toda a gente se apoia no equilíbrio dos estratos à sua volta; deste modo, na pequena fábrica de prazer de cada pessoa intervém um sistema de crédito moral altamente complexo, de que ainda falaremos, porque ele participa tanto do balanço espiritual da totalidade como do do indivíduo."
Robert Musil, O Homem sem Qualidades

sábado, 14 de novembro de 2009


Edvard Munch, Moonlight, 1895
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"O espírito do general Stumm deslocou-se para as suas recordações das aulas de religião e história, com a intenção de lançar luz sobre esse novo ponto de vista. Não é fácil dizer o que ele terá pensado, mas se extraíssemos dele essas ideias e as analisássemos, o resultado deveria ser mais ou menos este: para começar brevemente com a parte religiosa, podia dizer-se que enquanto houvesse fé era possível atirar um bom cristão ou um judeu devoto do alto de qualquer andar da esperança ou do conforto, que ele caía sempre, por assim dizer, sobre os pés da sua alma. Isso devia-se ao facto de todas as religiões, ao explicarem o sentido da vida dada aos homens, preverem sempre um resto irracional e incomensurável a que chamaram os desígnios insondáveis de Deus; se as coisas não saíam bem aos mortais, eles só precisavam de se lembrar desse resto, e o seu espírito podia esfregar as mãos de contente. Este «cair de pé» e «esfregar as mãos» é aquilo a que se chama uma visão do mundo, e o homem contemporâneo desaprendeu isso. E então, ou tem de prescindir completamente de reflectir sobre a sua vida, o que satisfaz muitos, ou cai naquela estranha divisão interior que o obriga a pensar sem nunca chegar à satisfação final. No decorrer dos tempos, esta contradição assumiu tantas vezes a forma de uma descrença total como a sua contrária, a da recaída numa total submissão à fé. E a sua forma mais frequente hoje em dia parece ser a da convicção de que sem espírito não há vida humana autêntica, mas com excesso de espírito também não. Toda a nossa cultura repousa sobre esta convicção. Empenha-se em disponibilizar os meios financeiros para as instituições de ensino e investigação, mas não em excesso; pelo contrário, eles têm de ser limitados e entrar numa proporção equilibrada com o dinheiro gasto com as diversões, os automóveis e as armas. Abre todos os caminhos aos mais competentes, mas toma todos os cuidados para que eles sejam também competentes nos negócios. Depois de alguma resistência aceita todas as ideias, mas isso reverte depois também a favor das ideias contrárias. Tudo isto cria a impressão de uma enorme fraqueza e desleixo; mas é também um esforço consciente de fazer notar ao espírito que o espírito não é tudo: se uma única vez fosse levada incondicionalmente a sério uma das ideias que fazem andar a nossa vida, de tal modo que não restasse nada da ideia contrária, a nossa cultura deixaria de ser aquilo que é!"

Robert Musil, O Homem sem Qualidades

Edvard Munch, Horse Team, 1919
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"Agora, teria dado tudo para poder voltar a falar com a tia Jane. Folheava os grossos álbuns de fotografias da família, que tinham chegado às mãos de Diotima por caminhos que desconhecia, e quanto mais se aproximava das origens dessa nova arte das imagens mais lhe parecia que as pessoas se postavam diante das câmaras com um orgulho muito particular. Apoiavam o pé, como algumas fotografias mostravam, sobre rochedos feitos de papelão, cobertos de hera feita de papel; se eram oficiais, afastavam as pernas e colocavam o sabre entre elas; as raparigas pousavam as mãos no regaço e abriam muito os olhos; se eram homens livres, as calças subiam-lhes, num romantismo ousado, sem vinco, como fumo enrolado, e os casacos tinham um corte redondo, uma força que viera destronar a dignidade rígida da casaca burguesa. Deve ter sido entre 1860 e 1870, já superadas as dificuldades iniciais da técnica. A revolução dos anos quarenta era um tempo agitado que havia ficado para trás, e havia novos conteúdos de vida, que hoje já não sabemos bem quais seriam; também já não existiam as lágrimas, os abraços e as confissões com que a nova burguesia, nos começos da sua era, tinha procurado a sua alma; mas, tal como uma onda que morre na areia, aquela nobreza de alma passara-se para as roupas e para uma certa descontracção pessoal, que terá certamente um nome mais adequado, mas das quais as fotografias são, para já, os testemunhos de que dispomos. Era o tempo em que os fotógrafos usavam casacas de veludo e cavanhaque, a imitar os pintores, e os pintores desenhavam enormes cartões nos quais se exercitavam a pintar regimentos inteiros de figuras importantes; e as pessoas em geral pensavam que era chegada a hora de se descobrir um processo que as eternizasse também a elas. E falta apenas acrescentar que não será fácil pessoas de outras épocas sentirem-se tão geniais e grandiosas como as desta, uma época, afinal, com tão pouca gente fora do comum - talvez porque raramente conseguiam destacar-se dos outros.

Ulrich perguntava-se muitas vezes se haveria uma relação entre essa época - em que um fotógrafo podia sentir-se genial porque bebia, usava camisa aberta e, com recurso a uma técnica moderna, revelava a todos os contemporâneos que se colocavam diante da sua objectiva a nobreza de alma que possuía - e uma outra em que só os cavalos de corrida são considerados geniais devido à sua insuperável capacidade de se esticarem e encolherem. As duas épocas são diferentes: o presente olha para o passado do alto do seu orgulho, e se o passado, por acaso, tivesse chegado mais tarde, olharia também para o presente do alto do seu orgulho. Mas no essencial assemelham-se muito, porque em ambos a imprecisão e a omissão das diferenças decisivas desempenham o papel principal. Toma-se pelo todo uma parte daquilo que é dominante, uma vaga analogia pela concretização da verdade, e empalha-se com o que a moda do momento oferece o odre oco de uma grande palavra. Resulta muito bem, mas não dura muito. As pessoas que tomavam a palavra no salão de Diotima não estavam erradas em nada do que diziam, porque os conceitos que usavam eram imprecisos como figuras numa lavandaria cheia de vapor. «Esses conceitos a que está presa a vida, como a águia às suas asas!», pensava Ulrich. «Esses inúmeros conceitos morais e estéticos da vida, por natureza tão frágeis como as duras montanhas na imprecisão da distância!» Multiplicavam-se nas línguas delas por rotação, e não era possível falar por alguns momentos de nenhuma das suas ideias sem saltar involuntariamente para a seguinte.
Em todos os tempos este tipo de pessoas encontraram para si próprias o nome de «tempos modernos». A expressão é como um saco com o qual quiséssemos apanhar os ventos de Éolo; é a desculpa permanente para não pôr as coisas em ordem - e isto quer dizer: na sua própria ordem, objectiva, e não no contexto imaginário de uma coisa absurda. E no entanto há nisto uma profissão de fé. Essas pessoas eram alimentadas, da forma mais estranha, pela convicção de terem por missão repor a ordem no mundo. Se designarmos por «meia-inteligência» o que elas fazem para alcançar esse fim, chegamos à notável conclusão de que a segunda metade dessa meia- -inteligência, nunca nomeada (mas podemos dizer que é a metade estúpida, nunca exacta nem correcta), possui uma inesgotável força de renovação e fecundidade. Há nela vida, capacidade de mudança, inquietação, variação de pontos de vista. Mas essas mesmas pessoas intuíam provavelmente o que se passava. Isso sacudia-as, soprava-lhes nas cabeças, viviam numa época nervosa, e qualquer coisa não batia certo, cada um se achava inteligente, mas todos juntos sentiam-se estéreis. E se ainda por cima tivessem talento - e a sua imprecisão de modo nenhum excluía isso - o que se passava nas suas cabeças era como ver o tempo e as nuvens, os comboios, os fios telegráficos, as árvores e os animais e todo o cenário animado do nosso querido mundo através de uma vidraça estreita e suja; e ninguém iria notar facilmente isso na sua própria janela, mas apenas na do vizinho.
Um dia, Ulrich exigira-lhes, por brincadeira, dados precisos sobre aquilo que queriam dizer. Olharam todos para ele desconfiados, chamaram à sua exigência visão mecanicista da vida e cepticismo, e afirmaram que as coisas mais complicadas só poderiam ser resolvidas da forma mais simples, e que por isso os tempos modernos, a partir do momento em que se libertassem do presente, seriam uma coisa muito simples. Contrariamente a Amheim, Ulrich não os impressionava minimamente, e a tia Jane ter-lhe-ia feito uma festa e dito: «Compreendo-os muito bem; a tua seriedade perturba-os.» "

Robert Musil, O Homem sem Qualidades

Edvard Munch, Starry Night, 1923
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"O grande-escritor é o sucessor do príncipe do espírito, e assumiu no mundo das ideias o lugar que os ricos ocuparam em substituição dos príncipes no mundo da política. Do mesmo modo que o príncipe do espírito é um fenómeno do tempo dos príncipes, assim também o grande-escritor pertence ao tempo das grandes guerras e dos grandes armazéns. É uma forma particular da associação do espírito com as coisas grandes. O mínimo que se pode pedir a um grande-escritor é, por isso, que tenha automóvel. Tem de viajar muito, ser recebido por ministros, fazer conferências; dar aos líderes da opinião pública a impressão de que representa uma força moral não desprezível; é chargé d'affaires do espírito da nação quando é preciso mostrar ao estrangeiro o nosso humanitarismo; em casa, recebe convidados notáveis e tem de se preocupar ainda com o seu negócio, que tem de gerir com a ductilidade de um artista de circo, sem que se note o esforço que dispende. Porque o grande-escritor de modo nenhum se pode confundir com o simples escritor que ganha muito dinheiro. Nunca precisa de ser ele a escrever «o livro mais lido» do ano ou do mês, basta que não tenha nada a objectar a este tipo de apreciação. Na verdade, ele está em todos os júris de prémios, assina todos os manifestos, escreve todos os prefácios, profere todos os discursos de aniversário, manifesta-se a propósito de todos os acontecimentos importantes e está sempre a ser chamado quando se trata de mostrar como chegámos longe. O grande-escritor, mau grado todas as suas actividades, nunca representa toda a nação, mas apenas a sua parte mais progressista, o grosso dos eleitos, já quase uma maioria, e isso rodeia-o de uma permanente tensão espiritual. Naturalmente, é a vida, na sua forma actual, que conduz à grande indústria do espírito, do mesmo modo que, inversamente, a indústria nos força a avançar no sentido do espírito, da política e da dominação da consciência pública; os dois fenómenos encontram-se a meio caminho. Por isso o papel do grande-escritor não se liga a uma pessoa em particular, mas coloca uma figura no tabuleiro do xadrez social, com regras de jogo e obrigações ditadas pela época. Os que, em cada época, se preocupam com o bem são de opinião que não lhes serve de muito haver alguém com espírito (há tanto espírito por aí que mais um, menos um, pouco adianta, e cada um acha que tem o suficiente para as suas próprias necessidades), que o importante é combater a barbárie sem espírito, e isso só se faz mostrando o espírito, vendo-o, levando-o a agir; e como o grande-escritor é o que melhor serve esse propósito, melhor do que um um escritor ainda maior, que se arrisca a não ser compreendido por muitos, faz-se tudo o que é possível para que a grandeza se mostre na dimensão que merece.
Vistas assim as coisas, não se pode censurar muito Arnheim por ser um dos primeiros a dar corpo a esta ideia, de forma experimental, mas já bastante acabada - isto, apesar de ser necessária uma certa predisposição inata para a função. Quase todos os escritores gostariam de ser grandes-escritores, se conseguissem lá chegar. Mas passa-se aí o mesmo que com as montanhas: entre Graz e Sankt Põlten há uma série de montes que até são muito parecidos com o Monte Rosa - só lhes falta altura. O pressuposto indispensável para se ser um grande-escritor é, então, o de escrever livros e peças de teatro que sirvam para todos os níveis, do mais alto ao mais baixo. Antes de produzir algum bom efeito, é preciso primeiro produzir efeito: este princípio é a base de toda a existência como grande-escritor. É um princípio miraculoso, eficaz contra todas as tentações da solidão, por excelência o princípio goethiano do sucesso: se nos movermos apenas num mundo que nos é propício, tudo o resto virá por si."

Robert Musil, O Homem sem Qualidades

sábado, 24 de outubro de 2009

Edvard Munch, Rain, 1902
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"O mais insignificante estagiário numa firma de projecção mundial tem todo o mundo a girar à sua volta, continentes espreitam por cima do seu ombro, e por isso nada do que ele faz é destituído de importância; à volta de um escritor solitário, metido no seu gabinete, giram, quando muito, as moscas, por mais que ele se esforce. Isto é tão evidente que muitos homens, quando começam a trabalhar com o material da vida, acham que tudo aquilo que antes os ocupou não passa de «literatura», ou seja, produz apenas um efeito fraco e confuso, quase sempre contraditório e que a si próprio se anula, desproporcionado em relação à importância que se lhe atribua. Não era bem este o caso de Arnheim, que não negava as belas emoções da arte, nem via como loucura ou fantasia alguma coisa que o tivesse afectado profundamente. No momento em que reconheceu a superioridade da sua conduta adulta sobre os devaneios da juventude, procurou chegar a uma fusão dos dois tipos de experiência, guiado pelos novos conhecimentos que a idade madura lhe trouxera. Afinal, mais não fazia do que a maior parte das pessoas cultas que, depois de encetarem uma vida profissional, não querem renegar os seus anteriores interesses, encontrando, pelo contrário, uma relação mais calma e amadurecida com os impulsos sonhadores da juventude. A descoberta do grande poema da vida, do qual sabem ser co-autores, dá-lhes de novo a coragem do diletante que haviam perdido nos tempos em que queimavam os seus próprios poemas. Escrevendo com o material da vida, podem ver-se verdadeiramente como especialistas natos, e procuram impregnar de responsabilidade intelectual a sua acção diária, sentem-se colocados perante mil pequenas decisões, para que essa acção tenha um sentido ético e belo, tomam como exemplo o que julgam ter sido a vida exemplar de Goethe, e declaram que sem música, sem natureza, sem a contemplação do jogo inocente das crianças e dos animais e sem um bom livro a vida não lhes dá alegria. Entre os Alemães é ainda esta classe média espiritualizada a maior consumidora das artes e de uma literatura não demasiado difícil; mas, compreensivelmente, os membros dessa classe olham pelo canto do olho para a arte e a literatura, que antes viam como a realização plena dos seus desejos, como se de um estádio preliminar se tratasse - ainda que numa forma mais perfeita do que aquela que alguma vez alcançaram -, ou então não lhe dão mais valor do que um fabricante de folha metálica daria a um escultor de figurinhas de gesso, se tivesse a fraqueza de achar belos tais produtos."
Robert Musil, O Homem sem Qualidades

quarta-feira, 23 de setembro de 2009


Edvard Munch, The Girls on the Bridge, 1901
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"(…) Um sentimento inquietante : tudo aquilo que julgo alcançar me alcança a mim, a suspeita torturante de que neste mundo as afirmações falsas, desprendidas e pessoalmente menos importantes terão um eco mais poderoso do que as mais autênticas e pessoais. «Aí está esta beleza», pensava-se; «muito bem, mas será ela a minha beleza? Será a verdade que me ensinam a minha verdade? Os objectivos, as vozes, a realidade, todas essas coisas que nos seduzem, atraem e arrastam, que seguimos e em que nos perdemos - será tudo isso a verdadeira realidade? Ou não será que dessa realidade não sentimos mais do que um sopro imponderável pairando sobre a realidade que se nos oferece? O que mais incita à suspeição são as divisões e as formas convencionais da vida, a história que se repete, realidades moldadas há gerações, a linguagem pronta-a-usar, não apenas a da língua, mas igualmente a das sensações e dos sentimentos.» (...) Para a maior parte das pessoas, talvez seja uma conveniência e um conforto encontrar o mundo já pronto-a-usar, com excepção de alguns mínimos pormenores individuais, e de forma alguma se duvidará de que tudo aquilo que permanece não representa apenas o conservadorismo, mas constitui também o fundamento de todo o progresso e de todas as revoluções, embora se tenha de admitir que aqueles que orientam a vida pela sua própria cabeça sentem em relação a isso um mal-estar profundo e sombrio. (...) Nesse momento, Ulrich desejou ser um homem sem qualidades. Mas provavelmente as coisas não seriam muito diferentes com todos os outros. No fundo, poucas pessoas saberão, a meio da vida, como chegaram a ser o que são, aos seus prazeres, à sua visão do mundo, à sua mulher, ao seu carácter, à sua profissão e aos seus êxitos; mas sentem que a partir daí as coisas já não irão mudar muito. Poderia mesmo afirmar-se que foram enganadas, porque não se consegue descobrir em lugar nenhum a razão suficiente para que tudo tenha acontecido como aconteceu, quando teria sido perfeitamente possível ter acontecido de outra forma. O que acontece, aliás, raramente depende da iniciativa dos homens, mas quase sempre das mais variadas circunstâncias, dos caprichos, da vida e da morte de outras pessoas, e, de certo modo, limita-se a vir ter connosco naquele preciso momento. Na juventude, a vida está ainda à nossa frente como uma manhã inesgotável, plena de possibilidades e de vazio; mas logo ao meio-dia algo se anuncia que reclama ser a nossa própria vida, mas que é tão surpreendente como uma pessoa com quem nos correspondemos durante vinte anos sem a conhecer, e que um belo dia, de repente, temos diante de nós e constatamos que é completamente diferente do que havíamos imaginado. Mas o mais estranho é que a maior parte das pessoas nem dêem por isso; adoptam aquele que veio ter com elas e cuja vida se fundiu com a própria, as vivências dele parecem-lhes agora ser a expressão das suas próprias qualidades, e o destino dele é o seu mérito ou sua desgraça. Sucedeu-lhes o mesmo que às moscas com o papel mata-moscas: algo as apanhou por um pêlo, lhes impediu os movimentos, as manietou a pouco e pouco até ficarem sepultadas sob uma espessa cobertura que já só vagamente corresponde à sua forma primitiva. Nessa altura, já só têm pensamentos desfocados da sua juventude, quando nelas existia qualquer coisa como uma força de resistência. Uma força de tracção turbilhonante que não pára e desencadeia uma tempestade de movimentos de fuga sem orientação; o espírito escarninho da juventude, a sua revolta contra o estabelecido, a disponibilidade para toda a espécie de heroísmo, para o sacrifício e para o crime, a sua ardente gravidade e a sua inconstância - tudo movimentos de fuga. No fundo, impulsos que apenas indicam que nada do que na juventude se empreende é fruto de uma necessidade e de uma clarividência interiores, ainda que nessa fase o modo como isso acontece queira fazer crer que todos os projectos do momento são inadiáveis e necessários. Alguém inventa um belo gesto novo, exterior ou interior ... Como traduzir isso? Uma pose vital? Uma forma para a qual a interioridade escorre como o gás para um balão de vidro? Uma expressão da impressão? Uma técnica do ser? Tanto pode tratar-se de um novo bigode como de um novo pensamento. É teatro, mas, como todo o teatro, tem o seu sentido - e as almas jovens precipitam-se num instante sobre isso, como os pardais dos telhados quando alguém espalha migalhas no chão. Não é difícil de compreender: quando lá fora um mundo nos pesa sobre a língua, as mãos, os olhos, uma Lua arrefecida feita de terra, casas, costumes, imagens e livros, e cá dentro só existe uma névoa em eterno movimento - que felicidade, quando alguém nos acena e nós julgamos reconhecer-nos nesse sinal! Haverá coisa mais natural do que um ser intenso que se apropria dessa nova forma antes das pessoas vulgares? É ela que lhe oferece o instante do ser, o equilíbrio tenso entre dentro e fora, entre ser esmagado ou voar e explodir. Assim cogitava Ulrich - e tudo isto, naturalmente, o afectava também pessoalmente: tinha as mãos nos bolsos, e no rosto uma expressão de felicidade tão calma e sonolenta como se, nos raios de Sol que desciam e o envolviam, estivesse morrendo de uma morte suave numa paisagem gelada -, pensando que não havia outra causa para aquele fenómeno sempre repetido a que se chama nova geração, pais e filhos, revolução intelectual, estilo novo, evolução, moda e renovação. O que faz desta ânsia de renovação do ser um perpetuum mobile mais não é do que o desconforto resultante da intrusão, entre o eu próprio, nebuloso, e o eu dos predecessores, petrificado numa carapaça que nos é estranha, de um pseudo-eu, de uma alma de grupo mais ou menos ajustada.E se estivermos atentos, por pouco que seja, veremos sempre aflorar no último futuro que acabou de entrar em cena os sinais do que num próximo futuro serão os velhos tempos. As novas ideias serão então apenas trinta anos mais velhas, mas apaziguadas e um pouco mais rechonchudas ou obsoletas, como o rosto radioso de uma rapariga ao lado do rosto apagado da mãe; ou então não tiveram êxito, mirraram e ficaram reduzidas a um qualquer projecto de reforma defendido por um velho idiota a quem uma meia centena de admiradores chama o grande Fulano. "
Robert Musil, O Homem sem Qualidades

Edvard Munch, The Yellow Log, 1911
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"De facto, o habitante de um país tem pelo menos nove caracteres: o profissional, o nacional, o político, o de classe, o geográfico, o sexual, o consciente, o inconsciente e talvez ainda um carácter privado. Encontram-se todos nele, mas dissolvem-no, e ele acaba por não ser mais do que uma pequena depressão do terreno banhada por estes muitos riachos que nela desaguam, para dela voltarem a sair e encherem, com outros riachos, um novo vale. É por isso que cada habitante da Terra tem ainda um décimo carácter, que é nem mais nem menos do que a imaginação passiva de espaços não preenchidos. Permite ao indivíduo tudo, menos uma coisa: levar a sério o que fazem os seus outros caracteres, pelo menos nove, e o que lhes acontece. Por outras palavras: tudo menos aquilo que poderia preenchê-lo e realizá-lo. Esse espaço, reconhecidamente difícil de descrever, tem uma cor e uma forma diferentes em Itália ou em Inglaterra, porque aquilo que dele se destaca tem cor e forma diferentes, e é nos dois lugares o mesmo espaço: um espaço vazio e invisível em que a realidade se configura como uma pequena cidade de brincar que a imaginação da criança tivesse abandonado."
Robert Musil, O Homem sem Qualidades

Edvard Munch, Snow Falling in the Lane, 1906
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"É a história que nos domina, e não nós a ela. Dia e noite viajamos dentro dela e fazemos tudo o que tem de ser feito; barbeamo-nos, comemos, amamos, lemos livros, exercemos uma profissão, como se as nossas quatro paredes estivessem imóveis, quando o inquietante de toda essa história é que as paredes viajam sem que nós demos por isso, e projectam os seus carris como longos fios, curvos e tacteantes, e nós não sabemos para onde. E ainda por cima, o que nós gostaríamos era de pertencer também às forças que determinam o andamento do comboio do tempo. É um papel muito pouco claro, e quando, após uma pausa mais longa, olhamos lá para fora, acontece que a paisagem se transformou: o que passa a correr, passa porque não pode deixar de o fazer. Mas, por mais dedicados que sejamos, não podemos evitar que uma sensação desagradável se apodere de nós, como se tivéssemos ultrapassado o objectivo ou metido pelo caminho errado. E um dia chega aquela necessidade irresistível e premente: descer! saltar do comboio! Uma nostalgia de sermos travados, de não progredir, de ficar parados, de regressar a um ponto antes do desvio errado!"
Robert Musil, O Homem sem Qualidades

domingo, 20 de setembro de 2009


Edvard Munch, From Thuringewald, c.1905
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“Tinha chegado o último dia de Julho, o mês preferido de Klingsor, a grande época das festas de Li Tai Pe passara, não voltaria mais, girassóis gritavam no jardim, dourados pelo azul adentro. Nesse dia, acompanhado do fiel Thu Fu, Klingsor foi em romaria a uma região que muito amava: subúrbios queimados, estradas poeirentas ladeadas de árvores velhas e altas, casebres vermelhos e cor de laranja nas margens arenosas do rio, camiões e plataformas de carga dos navios, compridos muros violeta, povo pobre e colorido. Na tarde desse dia sentou-se no pó à beira de um bairro periférico e pintou as tendas e caravanas coloridas de um carrossel itinerante, agachou-se à beira da estrada, no prado escalvado e crestado, fascinado pelas cores fortes das tendas. Apaixonou-se profundamente pelo lilás desbotado da franja de uma tenda, pelo verde e vermelho alegres das caravanas vagarosas; pelas estacas de armação pintadas de azul e branco. Furiosamente esgravatava com cádmio, selvaticamente em cobalto doce e frio, desenhou traços carmim desvanecendo-se através do céu amarelo e verde. Mais uma hora, oh, menos, e depois acabava-se, vinha a noite e amanhã começava já o mês de Agosto, o ardente mês da febre, que mistura na sua taça incandescente tanto medo da morte e tanta inquietação. A foice estava afiada, os dias declinavam, a Morte ria, escondida na folhagem acastanhada. Toca alto e arrojado, cádmio! Com fanfarra bem forte, carmim exuberante! Gargalhada estridente, amarelo-limão! Vem cá, montanha azul escura e longínqua! Venham ao meu coração, árvores baças, verde-poeirento! Como estais cansadas, como deixais afundar os vossos ramos dóceis e resignados! Bebo-vos, queridas visões! Eu crio para vós um simulacro de duração e a imortalidade, eu, o mais transitório, o mais descrente, o mais triste, aquele que de entre vós mais sofre com o medo da morte. Julho ardeu, Agosto em breve terá ardido também, subitamente de encontro a nós o grande fantasma arrepia-nos na folhagem amarela na manhã orvalhada. Num abrir e fechar de olhos, a floresta é varrida pelo mês de Novembro. Subitamente, o grande fantasma ri, subitamente gela-se-nos o coração, subitamente a doce carne rosada desprende-se dos nossos ossos, o chacal uiva no deserto, o abutre entoa enrouquecido o seu canto maldito. Um maldito jornal da capital traz o meu retrato, e por baixo diz: "Pintor excepcional, expressionista, grande colorista, morreu no dia dezasseis deste mês." Cheio de ódio abriu um sulco de azul parisiense por baixo das caravanas verdes dos ciganos. Cheio de amargura quebrou a aresta amarelo de cromo contra o marco de pedra. Com um desespero profundo pôs vermelhão numa mancha que estava em branco, aniquilou o branco exigente, lutou sangrando pela permanência e gritou verde vivo e amarelo napolitano ao Deus inexorável. Suspirando, arremessou mais azul sobre o insípido verde empoeirado, suplicante acendeu luzes fervorosas no céu da tarde. A pequena paleta cheia de cores puras e da mais viva intensidade luminosa era o seu conforto, a sua torre, o seu arsenal, o seu livro de orações, o seu canhão, do qual disparava contra a morte malvada. O púrpura era a negação da morte, o vermelhão era o escarnecer da decadência. O seu arsenal era bom, as suas tropas, pequenas e valentes, estavam alinhadas e brilhavam, radiosos soavam os tiros velozes dos seus canhões. Não adiantava nada, todos os disparos eram em vão, porém, disparar era bom, era felicidade e consolo, era ainda viver, era ainda triunfar.”
Hermann Hesse, O Último Verão de Klingsor



Edvard Munch, Fumo de Comboio, 1900
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"As viagens de comboio longas agradavam-lhe devido ao ritmo embalador que conferiam ao pensamento (...).
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Quando, por fim, dirigiu a atenção para o que se encontrava para lá da janela, fora assaltado por uma misantropia que lhe era familiar e não viu mais na paisagem construída que passava a deslizar do que fealdade e actividade absurda. No seu canto da zona ocidental de Londres, e na sua rotina diária, em que todas as preocupações se centravam em si mesmo, era fácil para Clive pensar na civilização como a soma de todas as artes, associadas ao design, à culinária, aos bons vinhos e a coisas semelhantes. Mas agora parecia-lhe que ela era o que de facto era - quilómetros quadrados de casas modernas mesquinhas, cujo principal objectivo era suportar antenas de televisão e parabólicas, fábricas que produziam tralha inútil para ser anunciada na televisão e, em lúgubres lotes de terreno, filas de camiões para as distribuírem; e, por todo o lado, estradas e a tirania do tráfego. Tudo aquilo fazia lembrar o rescaldo de uma festa desvairada. Ninguém teria desejado que as coisas fossem assim, mas não lhes tinham perguntado. Ninguém planeara aquilo, ninguém quisera aquilo, mas a maioria das pessoas era obrigada a viver ali. Ao observar aquele espectáculo quilómetro após quilómetro, quem poderia suspeitar que Purcell ou Britton, Shakespeare ou Milton, tinham alguma vez existido? De vez em quando, no momento em que o comboio ganhava velocidade e se afastava mais de Londres, o campo aparecia e com ele o início da beleza, ou a recordação dela, até que, segundos mais tarde, se diluía num rio que se transformava numa represa acimentada ou num súbito ermo agrícola sem cercas nem árvores, e estradas, novas estradas a estenderem-se até ao infinito, despudoradamente, como se tudo o que importava fosse estar noutro sítio. No que dizia respeito ao bem-estar de todas as outras formas de vida da Terra, o projecto humano era, não apenas um fracasso, mas um erro do princípio ao fim."
Ian McEwan, Amesterdão

sábado, 19 de setembro de 2009

René Magritte

Lessines, 1898 - Bruselas, 1967

En 1916 entró en la École des Beaux-Arts de Bruselas donde coincidió con Paul Delvaux. Comenzó su carrera artística dentro del cubofuturismo, pero pronto se vio atraído por el espíritu dadá. Entre 1925 y 1930 se relacionó con el grupo surrealista parisino y fue el principal impulsor del surrealismo belga, un grupo que componían entre otros, Camille Goemans y Paul Nougé.
Su descubrimiento de la pintura metafísica sería decisivo para su carrera artística. Se apartó deliberadamente del mundo del inconsciente y desarrolló un tipo de surrealismo basado en la asociación absurda de objetos que pintaba con una minuciosidad fotográfica. Mediante esos enigmas visuales que eran sus cuadros, Magritte logró crear una obra de una gran originalidad, en la que con unas imágenes sencillas, y en sí mismas comprensibles, conseguía transmitir significados complejos al descubrirnos el lado más misterioso de nuestro entorno familiar.


René Magritte, La Clef de Champs. 1936
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“Os pensamentos são, de facto, uma coisa muito particular. Por vezes não são mais do que acasos que desaparecem sem deixar rasto; os pensamentos têm fases vivas e fases mortas. Podemos ter uma ideia genial, e ela murchar lentamente nas nossas mãos como uma flor. Fica a forma, mas faltam as cores, o perfume. Ou seja, lembramo-nos dela palavra por palavra, o valor lógico, o postulado que encontrámos mantém-se intacto, e apesar disso apenas voga sem sustentáculo à superfície do nosso mundo interior, e não nos sentimos mais ricos por o ter descoberto. Até que, talvez ao cabo de anos, surge de repente um momento em que percebemos que neste entretempo não sabíamos nada dele, embora soubéssemos tudo de um ponto de vista lógico. É verdade, há pensamentos mortos e pensamentos vivos. O pensamento que se move na superfície iluminada, que pode a cada momento ser reconstituído seguindo o fio da causalidade, de modo nenhum é o pensamento vivo. Um pensamento que encontramos por esta via será sempre algo de indiferente, como um homem qualquer na coluna de soldados em marcha. Um pensamento - e ele pode ter já passado pelo nosso cérebro há muito tempo - só se torna vivo no momento em que alguma coisa que já não é pensamento, que já não é lógica, se junta a ele, de tal modo que sentimos a sua verdade, para lá de toda a legitimação, como uma âncora que se soltou e nos entrou pela carne irrigada de sangue, viva ... A percepção verdadeiramente grande de alguma coisa só em parte se dá no círculo de luz do cérebro; a outra parte situa-se no terreno escuro do mundo interior, e é acima de tudo um estado de alma na ponta mais extrema do qual pousa, como uma flor, o pensamento. (...) Do mesmo modo que eu sinto que um pensamento ganha vida em mim, assim também sinto que alguma coisa em mim vive ao contemplar as coisas, quando os pensamentos se calam. Há qualquer coisa de obscuro em mim, sob os pensamentos, e que eu não posso avaliar com o pensamento, uma vida que não se deixa traduzir em palavras e que, apesar disso, é a minha vida ... (...) Já não tenho medo. Sei que as coisas são as coisas e assim será sempre, e que eu as verei sempre, ora de uma maneira, ora de outra. Ora com os olhos da razão, ora com os outros ... E nunca mais tentarei comparar as duas coisas ...”
Robert Musil, As Perturbações do Pupilo Törless

René Magritte, La Condition humaine, 1935
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“Mais tarde, depois de superados os acontecimentos da sua juventude, Törless tornou-se um homem de espírito refinado e sensível. Era uma dessas naturezas de esteta e intelectual a quem a observação das leis e, em parte pelo menos, da moral pública dá uma certa tranquilidade, porque isso as exime de pensar em coisas grosseiras, muito distantes das suas subtis vivências anímicas; são, porém, pessoas que aliam a essa grande correcção exterior, um tanto irónica, uma indiferença entediada sempre que se lhes pede que se interessem pelos objectos daquela moral. Nelas, o interesse que verdadeiramente as toca concentra-se exclusivamente no amadurecimento da alma, do espírito, ou como se lhe queira chamar, coisas que vão crescendo em nós a partir de uma ideia entre as linhas de um livro ou que saem dos lábios fechados de um quadro; coisas que despertam quando uma qualquer melodia solitária e insistente se afasta de nós e - perdendo-se na distância - vai puxando, com movimentos estranhos, o fino fio vermelho do nosso sangue, que arrasta atrás de si - mas que nunca está presente quando redigimos documentos, construímos máquinas, vamos ao circo ou nos entregamos a centenas de actividades como estas. Os objectos que apenas solicitam a sua correcção moral são absolutamente indiferentes a estas pessoas.”
Robert Musil, As Perturbações do Pupilo Törless

René Magritte, La Condition humaine, 1933
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"Então também era possível que do mundo claro, quotidiano, o único que conhecera até aí, houvesse uma porta que dava para um outro, obscuro, ardente, de paixões, despido, aniquilador. Que entre aquelas pessoas cuja vida se passa de forma ordenada entre o escritório e a família, como numa construção transparente e sólida de vidro e ferro, e outras, caídas, ensanguentadas, sujas e devassas, errando por confusos corredores cheios de vozes aos berros, não só existe uma passagem, mas fronteiras próximas e secretas que se tocam e a cada momento podem ser ultrapassadas... Restava a pergunta: como é isso possível? Que coisas acontecem em tais momentos? O que é que emerge subitamente com um grito, e o que é que se desvanece?"
Robert Musil, As Perturbações do Pupilo Törless

René Magritte, Beautiful World, 1962
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“(…) a primeira paixão adolescente não é amor por uma pessoa, mas ódio a todas as outras. Sentir-se incompreendido e não compreender o mundo não são coisas que acompanhem a primeira paixão, são, e isso não acontece por acaso, a sua única causa. E ela própria é uma fuga na qual o estar a dois mais não é do que uma solidão duplicada. Quase todas as primeiras paixões duram pouco e deixam um travo amargo. São um erro, uma desilusão. Quando tudo passa não nos compreendemos e não sabemos a que atribuir a culpa. Isso acontece porque neste drama as pessoas quase sempre se encontram por acaso: são companheiros casuais numa fuga. Quando tudo acalma, não se reconhecem. Apontam contrastes um ao outro, porque já não dão pelo que têm em comum.”
Robert Musil, As Perturbações do Pupilo Törless

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

René Magritte, Le Faux Mirroir, 1928
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"Sentia-se muitas vezes forçado a relacionar-se com acontecimentos, pessoas, coisas, até consigo próprio, como se em tudo isso houvesse simultaneamente um enigma insolúvel e uma afinidade inexplicável e não totalmente justificável. Tudo lhe parecia compreensível como se fosse palpável, mas sem se deixar traduzir por completo em palavras e pensamentos. Entre os acontecimentos e o seu eu, e mesmo entre os seus próprios sentimentos e um qualquer eu mais íntimo que ansiava por compreendê-los, havia sempre uma linha divisória que recuava como um horizonte diante do seu anseio, quanto mais ele dela se aproximava. Quanto mais rigorosamente apreendia as sensações com os pensamentos, quanto mais familiares elas se tornavam, tanto mais pareciam, ao mesmo tempo, ser-lhe estranhas e imcompreensíveis; já nem parecia que elas lhe fugiam, era como se ele próprio delas se afastasse sem poder desfazer a ilusão de se estar a aproximar"
Robert Musil, As Perturbações do Pupilo Törless

quarta-feira, 29 de julho de 2009


Carlos Botelho, Lisboa, S. Cristovão, 1937
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Encontrei-me neste mundo certo dia, que não sei qual foi, e até ali, desde que evidentemente nascera, tinha vivido sem sentir. Se perguntei onde estava todos me enganaram, e todos se contradiziam. Se pedi que me dissessem o que faria, todos me falaram falso, e cada um me disse uma cousa sua. Se, de não saber, parei no caminho, todos pasmaram que eu não seguisse para onde ninguém sabia o que estava, ou não voltasse para trás – eu, que, desperto na encruzilhada, não sabia de onde viera. Vi que estava em cena e não sabia o papel que os outros diziam logo, sem o saberem também. Vi que estava vestido de pajem, e não me deram a rainha, culpando-me de não a ter. Vi que tinha nas mãos a mensagem que entregar, e quando lhes disse que o papel estava branco, riram-se de mim. E ainda não sei se riram porque todos os papéis estão brancos, ou porque todas as mensagens se adivinham.

Por fim sentei-me na pedra da encruzilhada como à lareira que me faltou. E comecei, a sós comigo, a fazer barcos de papel com a mentira que me haviam dado. Ninguém me quis acreditar, nem por mentiroso e não tinha lago com que provasse a minha verdade.
(...)
10-3-1931
Bernardo Soares, Livro do Desassossego

Carlos Botelho, Calçada Marquês de Tancos, 1940
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Descendo hoje a Rua Nova do Almada, reparei de repente nas costas do homem que a descia adiante de mim. Eram as costas vulgares de um homem qualquer, o casaco de um fato modesto num dorso de transeunte ocasional. Levava uma pasta velha debaixo do braço esquerdo, e punha no chão, no ritmo de andando, um guarda-chuva enrolado, que trazia pela curva na mão direita.

Senti de repente uma coisa parecida com ternura por esse homem. Senti nele a ternura que se sente pela comum vulgaridade humana, pelo banal quotidiano do chefe de família que vai para o trabalho, pelo lar humilde e alegre dele, pelos prazeres alegres e tristes de que forçosamente se compõe a sua vida, pela inocência de viver sem analisar, pela naturalidade animal daquelas costas vestidas.

Volvi os olhos para as costas do homem, janela por onde vi estes pensamentos.
A sensação era exactamente idêntica àquela que nos assalta perante alguém que dorme. Tudo o que dorme é criança de novo. Talvez porque no sono não se possa fazer mal, e se não dá conta da vida, o maior criminoso, o mais fechado egoísta é sagrado, por uma magia natural, enquanto dorme. Entre matar quem dorme e matar uma criança não conheço diferença que se sinta.

Ora as costas deste homem dormem. Todo ele, que caminha adiante de mim com passada igual à minha, dorme. Vai inconsciente. Vive inconsciente. Dorme, porque todos dormimos. Toda a vida é um sonho. Ninguém sabe o que faz, ninguém sabe o que quer, ninguém sabe o que sabe. Dormimos a vida, eternas crianças do Destino. Por isso sinto, se penso com esta sensação, uma ternura informe e imensa por toda a humanidade infantil, por toda vida social dormente, por todos, por tudo.

É um humanitarismo directo, sem conclusões nem propósitos, o que me assalta neste momento. Sofro uma ternura como se um deus visse. Vejo-os a todos através de uma compaixão de único consciente, os pobres diabos homens, o pobre diabo humanidade. O que está tudo isto a fazer aqui?

Todos os movimentos e intenções da vida, desde a simples vida dos pulmões até à construção de cidades e a fronteiração de impérios, considero-os como uma sonolência, coisas como sonhos ou repousos, passadas involuntariamente no intervalo entre uma realidade e outra realidade, entre um dia e outro dia do Absoluto. E, como alguém abstractamente materno, debruço-me de noite sobre os filhos maus como sobre os bons, comuns no sono em que são meus. Enterneço-me com uma largueza de coisa infinita.

Desvio os olhos das costas do meu adiantado, e passando-os a todos mais, quantos vão andando nesta rua, a todos abarco nitidamente na mesma ternura absurda e fria que me veio dos ombros do inconsciente a quem sigo. Tudo isto é o mesmo que ele; todas estas raparigas que falam para o atelier, estes empregados jovens que riem para o escritório, estas criadas de seios que regressam das compras pesadas, estes moços dos primeiros fretes - tudo isto é uma mesma inconsciência diversificada por caras e corpos que se distinguem, como fantoches movidos pelas cordas que vão dar aos mesmos dedos da mão de quem é invisível. Passam com todas as atitudes com que se define a consciência, e não têm consciência de nada, porque não têm consciência de ter consciência. Uns inteligentes, outros estúpidos, são todos igualmente estúpidos. Uns velhos, outros jovens, são da mesma idade. Uns homens, outros mulheres, são do mesmo sexo que não existe.
Bernardo Soares, Livro do Desassossego



Carlos Botelho, Madrugada, 1945
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"O despertar de uma cidade, seja entre névoa ou de outro modo, é sempre para mim uma coisa mais enternecedora do que o raiar da aurora sobre os campos. Renasce muito mais, há muito mais que esperar, quando, em vez de só dourar, primeiro de luz obscura, depois de luz húmida, mais tarde de ouro luminoso, as relvas, os relevos dos arbustos, as palmas das mãos das folhas, o sol multiplica os seus possíveis efeitos nas janelas, nos muros, nos telhados, - [...] - quando manhã [..] a tantas realidades diversas. Uma aurora no campo faz-me bem; uma aurora na cidade bem e mal, e por isso me faz mais que bem. Sim, porque a esperança / maior / que me traz tem, como todas as esperanças, aquele travo longínquo e saudoso de não ser realidade. A manhã do campo existe; a manhã da cidade promete. Uma faz viver; a outra faz pensar. E eu hei sempre de sentir, como os grandes malditos, que mais vale pensar que viver."

10 e 11-9-1931
Bernardo Soares, Livro do Desassossego

terça-feira, 28 de julho de 2009


Carlos Botelho, Lisboa e o Tejo, 1935
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Olho, como numa extensão ao sol que rompe nuvens, a minha vida passada; e noto, com um pasmo metafísico, como todos os meus gestos mais certos, as minhas ideias mais claras, e os meus propósitos mais lógicos, não foram, afinal, mais que bebedeira nata, loucura natural, grande desconhecimento. Nem sequer representei. Representaram-me. Fui, não o actor mas os gestos dele.

Tudo quanto tenho feito, pensado, sido, é uma soma de subordinações, ou a um ente falso que julguei meu, porque agi dele para fora, ou de um peso de circunstâncias que supus ser o ar que respirava. Sou, neste momento de ver, um solitário súbito, que se reconhece desterrado onde se encontrou sempre cidadão. No mais íntimo do que pensei não fui eu.

Vem-me, então, um terror sarcástico da vida, um desalento que passa os limites da minha individualidade consciente. Sei que fui erro e descaminho, que nunca vivi, que existi somente porque enchi tempo com consciência e pensamento. E a minha sensação de mim é a de quem acorda depois de um sono cheio de sonhos reais, ou a de quem é liberto, por um terramoto, da luz pouca do cárcere a que se habituara.

Pesa-me, realmente me pesa, como uma condenação a conhecer, esta noção repentina da minha individualidade verdadeira, dessa que andou sempre viajando sonolentamente entre o que sente e o que vê.

É tão difícil descrever o que se sente quando se sente que realmente se existe, e que a alma é uma entidade real, que não sei quais são as palavras humanas com que possa defini-lo. Não sei se estou com febre, como sinto, se deixei de ter a febre de ser dormidor da vida. Sim, repito, sou como um viajante que de repente se encontre numa vila estranha, sem saber como ali chegou; e ocorrem-me esses casos dos que perdem a memória, e são outros durante muito tempo. Fui outro durante muito tempo - desde a nascença e a consciência -, e acordo agora no meio da ponte, debruçado sobre o rio, e sabendo que existo mais firmemente do que fui até aqui. Mas a cidade é-me incógnita, as ruas novas, e o mal sem cura. Espero, pois, debruçado sobre a ponte, que me passe a verdade, e eu me restabeleça nulo e fictício, inteligente
e natural.

Foi um momento, e já passou. Já vejo os móveis que me cercam, os desenhos do papel velho das paredes, o sol pelas vidraças poeirentas. Vi a verdade um momento. Fui um momento, com consciência, o que os grandes homens são com a vida. Recordo-lhes os actos e as palavras, e não sei se não foram também tentados vencedoramente pelo Demónio da Realidade. Não saber de si é viver. Saber mal de si é pensar. Saber de si, de repente, como neste momento lustral, é ter subitamente a noção da mónada íntima, da palavra mágica da alma. Mas uma luz súbita cresta tudo, consume tudo. Deixa-nos nus até de nós.

Foi só um momento, e vi-me. Depois já não sei sequer dizer o que fui. E, por fim, tenho sono, porque, não sei porquê, acho que o sentido é dormir.
21-2-1930
Bernardo Soares, Livro do Desassossego

segunda-feira, 27 de julho de 2009


Carlos Botelho, Vista de Lisboa, 1940
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Considero a vida uma estalagem onde tenho que me demorar até que chegue a diligência do abismo. Não sei onde ela me levará, porque não sei nada. Poderia considerar esta estalagem uma prisão, porque estou compelido a aguardar nela; poderia considerá-la um lugar de sociáveis, porque aqui me encontro com outros. Não sou, porém, nem impaciente nem comum. Deixo ao que são os que se fecham no quarto, deitados moles na cama onde esperam sem sono; deixo ao que fazem os que conversam nas salas, de onde as músicas e as vozes chegam cómodas até mim. Sento-me à porta e embebo meus olhos e ouvidos nas cores e nos sons da paisagem, e canto lento, para mim só, vagos cantos que componho enquanto espero.

Para todos nós descerá a noite e chegará a diligência. Gozo a brisa que me dão e a alma que me deram para gozá-la, e não interrogo mais nem procuro. Se o que deixar escrito no livro dos viajantes puder, relido um dia, por outros, entretê-los também na passagem, será bem. Se não o lerem, nem se entretiverem, será bem também.
29-3-1930
Bernardo Soares, Livro do Desassossego

domingo, 26 de julho de 2009


Carlos Botelho, Alfama, 1950
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Nasci num tempo em que a maioria dos jovens haviam perdido a crença em Deus, pela mesma razão que os seus maiores a haviam tido – sem saber porquê. E então, porque o espírito humano tende naturalmente para criticar porque sente, e não porque pensa, a maioria desses jovens escolheu a Humanidade para sucedâneo de Deus. Pertenço, porém àquela espécie de homens que estão sempre na margem daquilo a que pertencem, nem vêem só a multidão de que são, senão também os grandes espaços que há ao lado. Por isso nem abandonei Deus tão amplamente como eles, nem aceitei nunca a Humanidade. Considerei que Deus, sendo improvável, poderia ser; podendo pois dever ser adorado; mas que a Humanidade, sendo uma mera ideia biológica, e não significando mais que a espécie animal humana, não era maisdigna de adoração do que qualquer outra espécie animal. Este culto da Humanidade, com seus ritos de Liberdade e Igualdade, pareceu-me sempre uma revivescência dos cultos antigos, em que os animais eram como deuses, ou os deuses tinham cabeça de animais.

Assim, não sabendo crer em deus, e não podendo crer numa soma de animais, fiquei, como outros da orla das gentes, naquela distância de tudo a que comummente se chama a Decadência. A Decadência é a perda total da inconsciência; porque a inconsciência é o fundamento da vida. O coração, se pudesse pensar, pararia.
(...)
29-3-1930
Bernardo Soares, Livro do Desassossego

Carlos Botelho, Ramalhete de Lisboa (ou Composição ou Panorâmica de Lisboa), 1935
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Todo o pensamento por mais que eu queira fixá-lo, se me converte, tarde ou cedo, em devaneio. Onde quisera pôr argumentos ou fazer correr raciocínios, surgem-me frases, primeiro expressivas do próprio pensamento, depois subsidiárias das primeiras, por fim sombras e derivações daquelas frases subsidiárias. Começo a meditar a existência de Deus, e encontro-me a falar de parques remotos, de cortejos feudais, de rios passando meio mudos sob as janelas do meu debruçamento; e encontro-me falando deles porque me encontro vendo-os, sentindo-os, e há um breve momento em [que] uma brisa real me toca na face, surgida da superfície do rio sonhado através de metáforas, do feudalismo estilístico do meu abandono central.
Gosto de pensar porque sei que não tardarei em não pensar. É como ponto de partida que o raciocínio me encanta – gare metálica e fria onde se embarca para o grande Sul. Esforço-me, às vezes, por meditar um grande problema metafísico ou até social, pois sei que a voz rouca do pensamento tem para mim caudas de pavão, que se me irão abrindo se eu esquecer que penso, e que o destino da humanidade é uma porta num muro que não há, e que eu posso portanto abrir para os jardins que me aprouver.
Bendito seja aquele elemento irónico dos destinos que dá aos pobres de vida o sonho como pensamento, assim como dá aos pobres de sonho, ou a vida como pensamento ou o pensamento como vida.
Mas até o sonho como correnteza de pensar se me volve cansando. E então abro os olhos de sonhar, chego à janela e transfiro o sonho para as ruas e os telhados. E é na contemplação distraída e profunda dos aglomerados de telhas separadas em telhados, cobrindo o contágio astral das gentes arruadas, que se me desprende deveras a alma, e não penso, não sonho, não vejo, não preciso; contemplo então deveras a abstracção da Natureza, da Natureza, a diferença entre o homem e Deus.
Trecho inédito do Livro do Desassossego de Bernardo Soares
(o documento que continua à guarda dos familiares do escritor, foi reproduzido na revista Ler de Março de 2009)

sábado, 25 de julho de 2009


Carlos Botelho, Torre de S. Cristovão, 1941
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"Que é viajar, e para que serve viajar? Qualquer poente é o poente; não é mister ir vê-lo a Constantinopla. A sensação de libertação, que nasce das viagens? Posso tê-la saindo de Lisboa até Benfica, e tê-la mais intensamente do que quem vá de Lisboa à China, porque se a libertação não está em mim, não está, para mim, em parte alguma. «Qualquer estrada», disse Carlyle, «até esta estrada de Entepfuhl, te leva até ao fim do mundo.» Mas a estrada de Entepfuhl, se for seguida, toda, e até ao fim, volta a Entepfuhl; de modo que o Entepfuhl, onde já estávamos, é aquele mesmo fim do mundo que íamos a buscar.
Condillac começa o seu livro célebre, «Por mais alto que subamos e mais baixo que desçamos, nunca saímos das nossas sensações». Nunca desembarcamos de nós. Nunca chegamos a outrem, senão outrando-nos pela imaginação sensível de nós mesmos. As verdadeiras paisagens são as que nós mesmos criamos, porque assim, sendo deuses delas, as vemos como elas verdadeiramente são, que é como foram criadas. Não é nenhuma das sete partidas do mundo aquela que me interessa e posso verdadeiramente ver; a oitava partida é que percorro e é minha.
Quem cruzou todos os mares cruzou somente a monotonia de si mesmo. Já cruzei mais mares do que todos. Já vi mais montanhas que as que há na terra. Passei já por cidades mais que existentes, e os grandes rios de nenhuns mundos fluíram, absolutos, sob os meus olhos contemplativos. Se viajasse, encontraria a cópia débil do que já vira sem viajar."
Bernardo Soares, Livro do Desassossego

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Vincent Van Gogh

Groot-Zundert, 1853-Auvers-sur-Oise, 1890


Hijo de un pastor protestante holandés, Van Gogh, comenzó trabajando en una galería de arte en La Haya, dando clases de francés, y ejerciendo de pastor laico entre los mineros belgas. Sus primeras obras reflejaban ese ambiente proletario cargado de crítica social.
Entre 1886 y 1888 vivió en París con su hermano Theo van Gogh, que era marchante de arte. Allí conoció a Toulouse-Lautrec y a Gauguin y se familiarizó con los nuevos movimientos artísticos que estaban en pleno desarrollo. Recibió una fuerte influencia de la obra de los impresionistas y de las estampas japonesas de Hiroshige y Hokusai y su paleta se hizo más colorista. En 1888 abandonó la capital francesa para trasladarse a Arles al sur de Francia, con la intención de fundar una comunidad de artistas. Bajo el ardiente sol de Provenza, pintó escenas rurales y empezó a abandonar los métodos puntillistas e impresionistas en favor de una pintura de formas más sintéticas y colores más estridentes. En octubre de 1888, Gauguin fue a verle a Arles y vivieron y trabajaron juntos durante un corto período de tiempo ya que pronto empezaron a tener violentos enfrentamientos. Una noche del mes de diciembre, después de una gran pelea en la que Van Gogh amenazó a Gauguin con una navaja, el artista se cortó parte de una oreja. Después de este incidente, estuvo algún tiempo internado en un hospital de Arles y un año en el manicomio de Saint-Rémy.
Van Gogh pasó el final de su vida en Auvers-sur-Oise, un pueblo al norte de París donde vivía el doctor Gachet, médico y coleccionista de obras de arte, a quien Theo van Gogh encargó el cuidado de la salud de su hermano pintor. En los poco más de dos meses que vivió allí antes de su suicidio, desarrolló, con recuperada energía, una frenética etapa creadora. Durante esas últimas semanas de vida, pintó algunos retratos pero sobre todo numerosos paisajes en los que utilizaba una paleta reducida y unas pinceladas agitadas y nerviosas, de ritmo ondulante y repetitivo.
Fue en esta localidad de Auvers-sur-Oise, donde, tras una recaída de su depresión, Van Gogh acabó con su vida disparándose un tiro.

domingo, 21 de junho de 2009


Vincent van Gogh, Noon: Rest from Work (after Millet), 1890
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Vincent van Gogh, First Steps (after Millet), 1890
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Vincent van Gogh, Enclosed Wheat Field with Peasant, 1889 
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Vincent van Gogh, Wheat Field with Sheaves, 1888
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Vincent van Gogh, Field with Ploughman and Mill, 1889
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Vincent van Gogh, Shepherdess (after Millet), 1889
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Vincent van Gogh, Peasant Woman Binding Sheaves (after Millet), 1889
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Vincent van Gogh, The Sower: Outskirts of Arles in the Background , 1888
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Vincent van Gogh, The Sower, 1888
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Vincent van Gogh, The Sower, 1888
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Vincent van Gogh, The Sower, 1888
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Vincent van Gogh, Shepherd with a Flock of Sheep, 1884
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Vincent van Gogh, Farmers Planting Potatoes, 1884
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Vincent van Gogh, Potato Planting, 1884
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«(...) - Diz-me, terra-mãe, diz-me a verdade: não poderão os homens viver sem guerras? - Fazes perguntas difíceis, Tolgonai. As chamas da guerra devoraram povos inteiros; cidades pereceram em incêndios; séculos houve em que eu sonhei ver pelo menos uma peugada de homem. A cada nova guerra, dizia eu aos homens: “Alto! Não derrameis mais sangue!” E hoje também digo: “Vós, que viveis além dos montes e dos mares! Vós, que viveis neste mundo! Que quereis? Terra? Tendes-me aqui, sou eu a terra! Sou igual para todos vós, e também vós sois todos iguais para mim. Não quero saber das vossas conversas, quero apenas que sejais amigos e trabalheis! Lançai um grão nos meus sulcos, eu dar-vos-ei cem. Espetai um raminho na terra, dar-vos-ei um plátano. Plantai um pomar, dar-vos-ei carradas de fruta. Criai gado, dar-vos-ei erva para ele. Construí casas, serei as paredes. Proliferai e multiplicai-vos, serei uma bela morada. Não tenho fim, não tenho limite, sou profunda e alta, chego e sobro para todos!” E perguntas-me tu se os homens podem viver sem guerras... Isso depende apenas de vós, da vossa vontade e do vosso bom senso, não de mim. - Revolta-me pensar, terra querida, que as guerras matam os teus melhores trabalhadores, os teus melhores mestres! Não posso aceitar tal. A vida convence-me de que os homens podem e devem opor-se à guerra. - Achas que as guerras não me fazem sofrer, Tolgonai? Fazem, e de que maneira! Tenho tantas saudades das mãos do camponês, e choro sem parar os meus filhos lavradores. Suvankul, Kassime, Djainak e todos os soldados que tombaram na guerra, fazem-me muita falta! Quando fico por arar, quando fico com searas por ceifar e trigo por debulhar, clamo por eles: “Onde estais, lavradores meus? Onde estais, semeadores meus? Levantai-vos, filhos meus, levantai-vos, lavradores, acudi-me que morro asfixiada!” Ah, como gostaria de ver chegar Suvankul com a enxada, Kassime com a ceifeira-debulhadora, Djainak com a carroça! Mas eles não me respondem... - Obrigada, terra, pelas tuas palavras. Portanto, também tu tens saudades dos meus homens, e choras por eles como eu os choro. Obrigada, terra.»
Tchinguiz Aitmatov, A Mãe Tolgonai